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Reunião do Programa de Educação Científica da Rede IANAS

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Publicado em 13/07/2010

Nos dias 12 e 13 de junho foi realizada no Museu Histórico Nacional do Rio de Janeiro a 7a Reunião dos Coordenadores Nacionais do Programa de Educação Científica da rede IANAS, que envolve 17 países. Este programa tem por objetivo fundamental mobilizar as Academias de Ciências nas Américas, visando contribuir para o aprimoramento do ensino de ciências em nossas escolas.

A agenda do evento recebeu sugestões do recém formado Grupo de Trabalho Sobre Mulheres para Ciência da Rede IANAS (WFS-WG, na sigla em inglês) e abrange uma avaliação do andamento do Programa, uma discussão sobre os desafios encontrados e sobre os próximos passos do Programa em cada um dos países envolvidos, além de abordar questões de gênero relacionadas à Educação Científica. O WFS-WG fez sua primeira reunião na sede da ABC, no dia 13 de junho.


JorgeAllende, Juan Pedro Laclette, Jacob Palis , José Lozano e Anneke Sengers

Na abertura do evento, o presidente da ABC Jacob Palis destacou que o Brasil está num bom momento para ciência, tecnologia e inovação (CT&I), em função dos crescentes investimentos nos últimos anos. Referiu-se ao grande desafio de ensinar ciência às crianças e identificar talentos desde cedo. "Acreditamos que encorajando e estimulando os jovens talentosos estamos contribuindo para o crescimento de nossa sociedade", ressaltou.

O biólogo mexicano Juan Pedro Laclette falou a seguir, em nome dos dois co-diretores da IANAS - ele e o vice-presidente da ABC, Hernán Chaimovich - e agradeceu o apoio da ABC a IANAS. "O Programa de Educação Científica de IANAS visa a capacitação de professores e o estímulo à participação de mulheres nas ciências. Essas duas questões estão na agenda da IANAS e esse Programa é a pérola da coroa". Para Laclette, tornar o aprendizado de Ciências mais atraente para as crianças é uma questão fundamental para os países em desenvolvimento. "Estamos aqui reunidos para trocar experiências e traçar uma estratégia conjunta. Pela avaliação do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (PISA) para as Américas, precisamos melhorar muito."

Para o coordenador do Programa de Educação Científica do InterAcademy Panel (IAP), o biólogo chileno Jorge Allende, o Brasil é um exemplo a ser seguido na região da América Latina e Caribe pelo salto qualitativo e quantitativo que vem dando em termos de Ciência, graças aos crescentes investimentos em CT&I - especialmente na qualificação de recursos humanos. "A Educação Científica é um dos pontos estratégicos em que a Ciência toca na sociedade, é necessário que haja investimento nessa área. O Programa do IAP atua no mundo todo, especialmente na África, na Ásia e nas Américas e tem tido um grande crescimento nos últimos seis anos", esclareceu Allende.

O Programa, de acordo com o geólogo colombiano José Lozano, secretário geral da Academia Colombiana de Ciências, tem a perspectiva de identificar e estimular os cientistas do futuro. "Mas o principal objetivo é fazer com que os cidadãos e cidadãs tenham conhecimento científico suficiente para compreender e intervir na sociedade em que vivemos", alertou.

Questões de gênero

A química norte-americana Anneke Sengers, coordenadora do grupo de trabalho de Mulheres na Ciência de IANAS, falou sobre o novo grupo - WFS-WG, na sigla em inglês -, que se reuniu em 11 de junho pela primeira vez na ABC para tratar de questões de gênero na educação científica. "Esse grupo vem complementar o programa da IANAS, abordando a questão de gênero na formação de recursos humanos para a Ciência nos países em desenvolvimento".

Sengers explicou que o grupo foi criado para estimular as Academias de Ciências a se engajarem nesse grande desafio de fazer com que as mulheres sejam parte integrante da força de trabalho nas áreas de Ciências e Engenharias. "Os professores do ensino fundamental devem ter nosso apoio para levar às salas de aula a conscientização das meninas de que elas podem ser cientistas e engenheiras, mostrando exemplos bem sucedidos de mulheres nessas áreas, sem abrir mão de sua vida pessoal como esposa e mãe. As meninas devem perceber essa perspectiva como possível para suas vidas."

Coordenadora do Programa de Educação em Ciência da Secretaria Especial de Políticas para Mulheres (SEPM), a professora Hildete Pereira de Melo afirmou estar muito feliz em participar de uma reunião promovida pela Academia Brasileira de Ciências, "porque as Academias em geral são espaços eminentemente masculinos em todo o mundo". Em seu ponto de vista, é preciso encantar os meninos e meninas com os inventos e descobertas do ser humano - que não são fruto apenas dos cérebros masculinos. "Queremos deixar uma estrada já aberta para o próximo governo, com a Secretaria e a Academia caminhando juntas, juntar esforços da Secretaria com a IANAS e a ABC para mudar a visão que a sociedade brasileira ainda tem de que a ciência é um espaço misógino."

Representando o Gender Advisory Board (GAB), uma das mais antigas organizações que pensam questões de gênero em C&T, criada em 1995, a Professora Emérita da UFRJ e socióloga Alice Abreu, diretora do escritório regional do International Council for Science (ICSU-LAC), mostrou-se feliz em participar do evento e apoiou a iniciativa da ABC e da IANAS. Alice informou que o GAB criou em 2006 um comitê brasileiro, com o apoio da ABC, e que a entidade produziu em 1995 o documento Missing Links, um dos melhores documentos já produzidos sobre a promoção da igualdade de gênero na educação científica, ainda atual. Nesse documento, é sugerido que quando tivermos mais mulheres em posições decisórias com relação a C&T, teremos diferentes prioridades nas pesquisas e o desenvolvimento de diferentes tipos de tecnologia. E para implementar o empoderamento das mulheres e jovens, a ferramenta mais eficiente, de acordo com o estudo, é o conhecimento. O texto então busca identificar formas de acesso para as mulheres à C&T.

Derrubando os mitos

O que as Academias de Ciências poderiam fazer para empoderar as mulheres em seu trabalho técnico-científico ou em seu empenho pela educação em ciência e tecnologia? Como atrair meninas e jovens ou, mesmo, manter o interesse das mulheres no campo das ciências e das tecnologias? Essas perguntas nortearam o evento, que reuniu especialistas da Argentina, Bolívia, Brasil, Canadá, Caribe, Chile, Colômbia, Cuba, EUA, Guatemala, México, Peru, República Dominicana e Venezuela.

Ao final das apresentações do fim de semana, a coordenadora do Programa ABC na Educação Científica no Estado do Rio de Janeiro, Danielle Grynszpan, que é professora e pesquisadora do Setor de Alfabetismo Científico da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), fez um breve resumo das discussões. "Talentos precisam ser encorajados e alimentados, assim como barreiras artificiais, construídas com base em preconceitos, não podem mais ser toleradas - estas ideias básicas foram unânimes entre todos e todas que participaram", relatou Danielle.

A ciência poderia ser enriquecida com um maior reconhecimento da contribuição feminina, ampliando a diversidade de talentos e visões. Na maioria das Academias de Ciências, segundo a pesquisadora, o quantitativo de mulheres não passa de 10%. "Seria preciso dar as boas vindas e valorizar as cientistas e tecnologistas mulheres nos institutos de pesquisa, bem como estimular todos os estudantes, sem distinção de gênero. As mulheres também deveriam ter reconhecido seu valor como importantes parceiras no que tange à definição de parâmetros e estruturas de formação e desenvolvimento dos recursos humanos em ciência e tecnologia", defendeu Danielle.

Romper os mitos

"Meninas não se interessam por ciência" ou "tecnologia é para meninos". Esses são alguns dos pré-conceitos que Danielle Grynszpan apontou como extremamente prejudiciais ao desenvolvimento das mulheres nas ciências. Ela observou que expectativas baixas levam à performances baixas. "O preconceito pode levar os profissionais da educação a alcançarem os resultados esperados, ou seja, maus resultados."

Outras questões relevantes foram consensuais entre os presentes ao encontro. Um obstáculo apontado foi a representação da imagem do cientista sempre no gênero masculino nos livros escolares e na mídia em geral. O clima institucional cientifico também é muitas vezes hostil às mulheres - exceção feita às Ciências Sociais. "Nós não somos bem aceitas pelo pessoal mais antigo e tradicional, que geralmente avalia mal as mulheres", acrescentou Danielle.

Por tudo isso, foi avaliado como fundamental mostrar que a ciência e a tecnologia são produtos de um processo social, uma produção coletiva na qual homens e mulheres colaboram trabalhando juntos, igualmente envolvidos e entusiasmados por seus trabalhos de pesquisa, imbuídos da importância destas atividades para a sociedade. "As próprias Academias de Ciências deveriam nomear mais mulheres entre seus membros, por sua competência técnica ou pela dedicação à causa da difusão cientifica. Alem disso, as Academias deveriam influenciar para que as mulheres fossem indicadas para participar em comitês de decisão técnico-científicos, bem como valorizadas como conferencistas em eventos acadêmicos."

Finalizando seu relato, Danielle destacou uma recomendação do evento: que as questões de gênero passem a ser incorporadas no desenvolvimento de projetos e programas de educação cientifica, relacionando-se os desafios a serem percebidos e enfrentados, a fim de reverter o quadro atual.

No debate aberto para colocações do público, uma professora observou que não há recursos materiais para laboratórios de ciências nas escolas públicas. "Isso é fato", respondeu Danielle Grynszpan, "além de outros fatores que também são prejudiciais, como o grande número de alunos nas turmas". Mas destacou que a proposta metodológica do Programa ABC na Educação Científica inclui a produção do material didático pelos professores junto com os alunos. "A metodologia investigativa não requer recursos caros, os materiais didáticos são criados ao longo do processo", esclareceu Danielle. Estão sendo desenvolvidas, inclusive, bancadas móveis para o caso de falta de espaço físico para laboratórios. Outra professora corroborou a tese de Danielle, ressaltando que "ciência não se faz só no laboratório - se faz na cozinha, no varal, no corredor, na brinquedoteca. Ciência está na vida."


(Elisa Oswaldo-Cruz para as Notícias da ABC)



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