Português > Notícias > Reunião Magna 2015: entrevista com Vivaldo Moura Neto


Reunião Magna 2015: entrevista com Vivaldo Moura Neto

  • Compartilhe:

Publicado em 24/04/2015

Engenharia, neurociência, nanotecnologia, astronomia, física, química, paleontologia, matemática, ciências sociais, medicina. Os três dias de conferências da Reunião Magna da Academia Brasileira de Ciências deste ano, que acontece entre 4 e 6 de maio, estão marcados pela diversificação. Temas variados e participantes de peso, incluindo dois Prêmios Nobel, prometem debates ricos e interessantes para pessoas de todas as áreas.

A ABC entrevistou o coordenador da Reunião Magna, o Acadêmico Vivaldo Moura Neto , que falou sobre as novidades da nona edição do evento mais importante da Academia. O tema inédito, "O Valor da Ciência", tem inspiração na obra do matemático, físico e filósofo Henri Poincaré, que viveu entre os séculos XIX e XX , e põe em discussão o valor intrínseco de atividade científica.

Nos próximos dias, a ABC publicará uma série de entrevistas com coordenadores de sessões e participantes da Reunião Magna 2015, que adiantarão os assuntos de suas apresentações e falarão sobre seus respectivos trabalhos e a relação deles com o tema do evento. Confira a seguir a entrevista com Vivaldo Moura Neto:

O tema da Reunião Magna de 2015, "O Valor da Ciência", é bastante abrangente e pode ter várias interpretações. Quais delas estão relacionadas com a edição deste ano?

Vivaldo Moura Neto: A Reunião Magna deste ano abordará o Valor da Ciência na acepção de Henri Poincaré, um importante matemático, físico e filósofo francês dos séculos XIX e XX. A ideia, uma sugestão de Jacob Palis  [presidente da ABC], é discutir assuntos ligados valor intrínseco da atividade científica, além de ressaltar o valor fundamental da ciência para o desenvolvimento socioeconômico de qualquer país e para a superação da crise brasileira. Há, portanto, dois lados deste tema, bem como Poincaré aponta: a ciência como um prazer intrínseco ao homem, que se alegra com o que faz como uma artista se alegra diante de sua obra, e o lado pelo qual a ciência pode ser "traduzida" e tornar-se uma aplicação útil ao desenvolvimento tecnológico e social.

A Reunião Magna de 2014 teve como foco a inovação e a integração entre a academia e as empresas. Já este ano, a programação parece estar mais voltada às diferentes áreas da ciência básica e o impacto de suas pesquisas. No atual cenário de uma importância cada vez maior das inovações tecnológicas, qual é o valor da pesquisa básica?

Vivaldo Moura Neto: A pesquisa dita básica, aquela que fazemos com um tema que nos desafia, intriga e que nos leva a buscar prazer no que fazemos, é de fato a essência do que descrevemos como inovação, tecnologia, aplicação. Poderemos ver estes elementos que norteiam a investigação científica que se faz nos laboratórios de todo o mundo de forma clara e com muito boa qualidade na Reunião Magna.

Veremos isso na fala de Michel Morange, professor da École Normal Supérieure, biologista com larga experiência, além de filósofo e "filho" da escola de François Jacob. Etienne Ghys, matemático já conhecido nosso [porque participou da Reunião Magna de 2014] e que tem sempre um ponto novo a apresentar, nos mostrará a beleza da matemática e da ciência. A colega Elisa Reis  proporá um debate importante sobre as ciências sociais, e a mesa redonda sobre engenharia, que será conduzida por Sandoval Carneiro, discutirá a contribuição que a engenharia brasileira poderá nos dar neste momento em que precisamos partir do básico para o aplicado. Este é um binômio que pode refletir bem o pensamento central do prazer da ciência e seu grande valor para a sociedade.

Este binômio reflexivo será também ouvido nas conferências de Marcos Pimenta  e Fernando Galembeck , trazendo-nos a nanotecnologia que eles sabem explorar tão bem com suas equipes. Já a premiada astrônoma Beatriz Barbuy falará sobre as lições que podemos tirar do céu através de sua ciência, que tem sido responsável por grandes e recentes descobertas. Alexander Kellner  apresentará as contribuições da paleontologia para o conhecimento da história da Terra, tema que fascina a todos por estimular nossa curiosidade. Enfim, vamos lidar com o prazer intrínseco que o ser humano encontra em lidar com a ciência.

Nesta edição, teremos uma participação internacional forte, com palestras de dois Prêmios Nobel - um francês e uma israelense - assim como do matemático Étienne Ghys  e do biólogo Michel Morange, ambos franceses. De que forma as experiências desses convidados podem contribuir para elevar o valor da ciência no Brasil?

Vivaldo Moura Neto: Jules Hoffmann, Prêmio Nobel de Medicina em 2011, nos abriu os olhos para a sinalização celular e o controle da vida celular, num trabalho sólido que continua sendo feito até hoje no campo das biologias. A professora Ada Yonath foi vencedora do Nobel de Química em 2009, com um espetacular trabalho demonstrando a ultraestrutura cristalográfica dos ribossomos, elementos celulares por onde passa o caminho da síntese de proteínas na célula. Seus trabalhos são inspiradores para nós.

Já a nossa sessão sobre o Valor da Ciência no Brasil será apresentado por alguém que tem uma visão amadurecida, rica e forte: Jorge Guimarães, que ocupou por 12 anos a presidência da Capes, fazendo crescer um invejável programa de pós-graduação no país, refletindo o potencial da ciência brasileira. É esta ciência feita no Brasil que deve ser solicitada para resolver os problemas que enfrentamos hoje e são essas soluções que nos levarão adiante.

Neste ano, teremos uma sessão especial dedicada ao Ano Internacional da Luz, uma iniciativa mundial da ONU que vai destacar a importância da luz e das tecnologias ópticas na vida dos cidadãos. O que podemos esperar dessa sessão?

Vivaldo Moura Neto: Será uma belíssima sessão, pois teremos o prazer e a honra de ouvir Moysés Nussenzveig, que sabe nos colocar "diante da luz" como ninguém. Sua conferência terá como moderador um dos nossos mais respeitados físicos, Luiz Davidovich . Inclusive, neste ano, procuramos vincular a cada conferência um moderador - alguém que dará um perfil do conferencista e que dirigirá a discussão a cada vez. Procuramos vincular nossos colegas Acadêmicos da melhor expressão nas áreas das conferências e, assim, teremos a participação de Jacob Palis, Carlos Aragão, Eliete Bouskela , Sandoval Carneiro, Luiz Eugênio Mello, Vitor Ferreira, Adalberto Fazzio , Belita Koiller , Helena Nader , Lucia Previato e Jerson Lima.


(Clarice Cudischevitch para NABC)



webTexto é um sistema online da Calepino