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O que o ITA tem a ensinar sobre excelência em estudos tecnológicos no Brasil

Em continuidade ao Simpósio Internacional sobre Excelência na Educação Superior (dias 22 a 24 de setembro, na sede da Academia Brasileira de Ciências, Rio de Janeiro), o palestrante convidado Celso Hirata, vice-reitor para estudos de graduação e pesquisa do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), abordou o tema "Educação Superior e Institutos Tecnológicos".

"O ITA foi pensado para criar uma indústria aeronáutica. Não era para ter apenas uma escola [de engenharia aeronáutica], mas criar toda uma indústria", resume o vice-reitor sobre as origens e a missão da instituição, comumente considerada o melhor instituto tecnológico do Brasil e um polo acadêmico de excelência.

De fato, quando se trata de alta qualidade de educação e retorno financeiro e tecnológico para os mercados e a sociedade, a posição do ITA é confortável. Quando professores do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) - a terceira melhor universidade do mundo em 2014, segundo o ranking ARWU - vieram dar aulas no Instituto, eles elogiaram a qualidade dos estudantes brasileiros como "superior mesmo a dos seus próprios alunos", disse Hirata. O sucesso dos cursos de graduação e pós-graduação do ITA é tanto que a Embraer, sua principal parceira no ramo da aeronáutica, "entende que não consegue desenvolver projetos de envergadura" sem eles. Até 2013, o Instituto havia formado mais de 800 profissionais com mestrado.

Seleção a pente fino e rotina não menos severa

Com uma reputação sólida e um limite de 120 vagas a cada ano (600 estudantes ao todo), a concorrência para entrar no ITA é extrema, de modo que o rigor de seu processo seletivo ganhou fama nacional. "Alunos vão para escolas conceituadíssimas só para conseguir passar em nosso vestibular. Tentar três vezes ou mais é algo comum", diz o vice-presidente. "Dois terços de nossos estudantes possuem medalhas de competições no ensino médio - de olimpíadas de física, matemática e outras mais."

Longe de abrandar, a rotina dos recém-admitidos durante a graduação - que dura cinco anos, ou dez semestres letivos - é tão ou mais severa do que o processo seletivo. São entre seis e oito cursos por semestre, totalizando 30 horas-aula semanais, com frequência mínima de 85%. Para Hirata, há um orgulho na promoção de um ritmo intenso de avaliações e solução de problemas, tanto que qualquer nota inferior a cinco (a nota máxima é dez) em qualquer curso durante os dez semestres letivos resulta na eliminação do aluno do Instituto.

Modelo pouco atualizado e estudantes insatisfeitos

Apesar de ser referência nacional em termos de aeronáutica, automobilismo (o ITA contribui para o programa do etanol brasileiro), telecomunicações e pesquisa espacial, Hirata acredita que o modelo do ITA, embora "brilhante há 60 anos", precisa de uma reformulação para se adequar as necessidades contemporâneas. "A questão também não é somente de novas tecnologias, mas de saber desenvolver para novos mercados" - tais como os de energia sustentável, transporte, água e comida, saúde, educação e segurança.

Entre os estudantes, a situação atual também não é um exemplo de popularidade. Com um excesso de aulas pouco motivadoras, foco na avaliação em detrimento do ensino ou da inspiração, quase nenhuma integração entre as várias matérias e pouco contato com a tecnologia e prática na "vida real", os alunos estudantes passaram a demonstrar sua insatisfação em reuniões, conferências e, no caso mais famoso, com uma greve em agosto de 2013.

Hirata afirmou que o ITA reconhece estes problemas e que a manifestação dos alunos serviu como a pressão necessária para que a reitoria executasse algumas das mudanças, incluindo a implantação de um modelo mais prático e motivacional de aulas. Adicionalmente, o Instituto planeja expandir seu número de admissões e quadro docente sem sacrificar o padrão de excelência.

Ironicamente, um dos motivos para a manutenção da qualidade é a própria natureza ultra concorrida do processo seletivo. "A diferença de nota entre o 121º colocado e o 500º é muito pequena, então temos condições de aceitar até 500, 600 candidatos sem nenhuma perda de qualidade".


(Diogo Cysne para NABC)



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