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O que jovens cientistas da ABC estão pesquisando I

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Publicado em 1º/10/2013

O 2º Encontro Nacional de Membros Afiliados da Academia Brasileira de Ciências ocorreu nos dias 28, 29 e 30 de agosto, no Laboratório Nacional de Computação Científica (LNCC) do Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), sediado em Petrópolis, no estado do Rio de Janeiro. Com o tema Ciência & Tecnologia no Brasil: para onde queremos caminhar?, o evento reuniu cientistas jovens, seniores, gestores e autoridades das áreas de C&T para debaterem ’Internacionalização da ciência brasileira’, ’Integridade científica’ e ’Desenvolvimento de CT&I na Amazônia’, discussões as quais o Notícias da ABC fez a cobertura.

Pesquisas em curso já trazem bons resultados

Mas não se falou apenas de política da ciência no evento. Alguns membros afiliados da ABC - jovens cientistas que participam das atividades da Academia por cinco anos - também apresentaram o andamento de suas pesquisas.

Na área de ciências biológicas, Noemia Kazue, pesquisadora do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) e afiliada à ABC no período 2009-2013, relatou seus estudos sobre bioprospecção de macrofungos da Amazônia, apresentando perspectivas sobre o tema. A seu ver, os macrofungos existentes na região amazônica são pouco conhecidos, diferentemente de países da Europa ou o Japão, país onde fez seu doutorado, onde existe conhecimento aprofundado sobre as espécies encontradas no seu território. Neste sentido, a intenção de Kazue é aplicar na Amazônia o conhecimento que ela obteve no exterior, pois a biodiversidade de macrofungos na região é enorme e o conhecimento a respeito precisa ser ampliado.

Suas pesquisas estão levando a descoberta de novas espécies e de espécies já conhecidas em outros locais. Uma vez encontradas, a pesquisa passa a ser sobre a biologia e a fisiologia dos macrofungos, para tentar produzir as espécies que são comestíveis. Além disso, é feita a bioprospecção, ou seja, a coleta de espécies que tenham potencial econômico e possam eventualmente levar ao desenvolvimento de um produto. O foco principal é descobrir se esses macrofungos produzem compostos bioativos interessantes para agricultura, medicina e farmácia. "Em resumo, estou em busca de aumentar do conhecimento científico da região, proteger a biodiversidade e buscar formas sustentáveis do seu uso", afirmou Noemia.

Na área de ciências da saúde, Antônio Lúcio Teixeira, professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e membro afiliado da ABC entre 2009 e 2013, comentou sua pesquisa sobre o papel de mediador entre a mente e o corpo humano desempenhado pelo sistema imunológico. Ele explicou que o sistema imune é tradicionalmente associado à defesa do organismo contra micro-organismos, mas participa de outras funções para garantir a homeostase, ou seja, o equilíbrio interno do organismo dos seres humanos em geral. Para tanto, o sistema imune tem que atuar maneira muito próxima e interligada ao sistema nervoso.Por isso, Teixeira estuda a interação entre os sistemas mencionados a partir de situações patológicas e fisiológicas distintas, demonstrando como o sistema imune, em se alterando, é capaz de alterar também o sistema nervoso.

"A pesquisa mostra a interação desses sistemas em diversos níveis e também como alterações nesses níveis podem gerar uma série de transtornos psiquiátricos de relevância clínica, tais como transtorno de humor - no qual há várias evidências de disfunção imune - assim como doenças neurodegenerativas-, explicou o cientista. Além de permitir a compreensão da fisiopatologia dessas doenças, o entendimento da disfunção imune pode viabilizar o desenvolvimento de novas estratégias terapêuticas. "Esse é o grande desafio prático dessa linha de investigação", esclareceu Teixeira.

Na área de ciências químicas, Luciana Almeida, professora da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e membro afiliado da ABC eleita para o período de 2010 a 2014, está pesquisando como a fotossíntese artificial pode ser um caminho para a geração de combustíveis sustentáveis. A ideia é reproduzir a fotossíntese num ponto específico, a reação química. Ou seja, não é intenção da pesquisadora reproduzir integralmente a fotossíntese natural, realizada pelas plantas.

Luciana substitui a planta por um óxido metálico ou um sulfeto, usa a energia solar para fotoexcitar esse material que, por sua vez, é capaz de produzir reações cujos produtos podem ser usados como combustíveis. E para produzi-los são utilizados como matérias-primas a água, derivados de biomassa, energia solar e semicondutores, esse último sendo um material produzido em laboratório. Na etapa em que a pesquisa se encontra, o desafio é fazer com que esta fotossíntese artificial tenha melhores resultados através do uso de materiais de composição menos tóxica, nociva ou inócuas. "Quando comparamos, a maior produção de hidrogênio atualmente advém da reforma catalítica de gás natural, um processo altamente energético que usa matéria-prima de origem fóssil. Esse processo de fotossíntese artificial é de origem não-fóssil, renovável, matéria-prima sustentável e abundante. Em se tratando de uma reação não espontânea, essas são escolhas complexas. A última etapa da pesquisa visa aumentar o rendimento energético", afirmou Luciana.

Na área de ciências matemáticas, Fernando Codá, pesquisador do Instituto de Matemática Pura e Aplicada (IMPA) e membro afiliado da ABC entre 2010 e 2014, explicou a solução que sua pesquisa encontrou para a Conjectura de Willmore. Trata-se de um estudo feito em colaboração com André Neves, pesquisador do Imperial College, sediado no Reino Unido, que resolve um problema matemático que estava sem solução desde meados do século passado. A conjectura trata de superfícies no espaço que possuem a forma de uma bóia. A questão é encontrar, dentre todas essas superfícies no espaço, qual é a melhor, mais elegante ou bonita possível e matematicamente interessante. "Cada superfície no espaço vem com uma energia elástica de deformação, por isso a tarefa é encontrar a superfície que possua a menor energia elástica possível. O matemático inglês Thomas James Willmore fez uma previsão em 1965 e, através de nossa pesquisa, foi possível comprová-la recentemente", afirmou.


(Davi Padilha Bonela para Notícias da ABC)



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