Português > O professor que faz a diferença


O professor que faz a diferença

Falta de investimento, ausência da família na escola, violência, drogas. São muitos os desafios na carreira de um professor, sobretudo os que lecionam em escolas públicas e no interior do país. Apesar disso, não são raros os casos de educadores que conseguem superar os obstáculos e além de ensinar sua disciplina, oferecem aos alunos a oportunidade de mudar de vida.

Durante o X Seminário Nacional ABC na Educação Científica, realizado nos dias 9 e 10 de outubro em Ilhéus, na Bahia, o professor Marcos Antonio Pinto Ribeiro foi exemplo de educador, que através do estímulo a curiosidade, incentivou seus alunos a buscarem respostas e a se tornarem cidadãos. Ele mantém um projeto de ensino por investigação no Museu de Ciências Ricardo Ferreira, criado na Escola Pública Otacílio Nunes de Souza, em Petrolina (PE).

Apaixonado pela divulgação científica, o professor trabalha no Museu desde 2011. O espaço é um lugar informal de divulgação científica, no qual alunos do ensino médio interagem e debatem sobre tudo que acontece no meio científico. É o único museu do gênero criado dentro de uma escola.

Marcos Ribeiro possui graduação em física pela Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRP) e cursa mestrado de ensino de ciências exatas pela Unidade Integrada Vale do Taquari de Ensino Superior (Univates). Atualmente é professor efetivo da Secretaria de Educação e Cultura do Estado de Pernambuco.

Igor Gois tem 18 anos, é aluno do ensino médio e também coordenador do Museu de Ciências Ricardo Ferreira. Jamilton Barbosa, de 19 anos, cursa o terceiro ano do ensino médio na escola Otacílio Nunes de Souza e quer ser engenheiro civil. Esses dois jovens tem algo em comum: suas vidas foram transformadas pelo gesto de esperança na educação do professor Marcos Ribeiro.


O aluno e coordenador do Museu de Ciências Ricardo Ferreira,
Igor Gois, palestrando; o professor Marcos Ribeiro e o aluno Jamilton Barbosa

Em entrevista à Assessoria da ABC, o professor Marcos Ribeiro e os alunos Jamilton Barbosa e Igor Gois contam como o projeto do Museu de Ciências Ricardo Ferreira mudou comportamentos e a maneira de ver a ciência.

ABC | O que vocês mais gostam no projeto do Museu?

Jamilton Barbosa | Eu gosto quando o professor nos instiga a solucionar um problema. Isso é legal.

Igor Gois | No Museu eu aprendo coisas que talvez nunca aprenderia na sala de aula. Só olhando no quadro uma teoria de física, por exemplo, você não consegue entender perfeitamente. No Museu não. Você pode ver a teoria na prática, fica mais mais simples tendo a prática. E foi isso o que mais me chamou a atenção e é o que eu mais gosto do Museu: aprender dessa maneira gostosa. Eu passei a tomar gosto pelas disciplinas.

ABC | Como os alunos são escolhidos para trabalhar no Museu?

Igor Gois | Quando o professor Marcos seleciona os alunos para trabalhar no Museu, as pessoas pensam que os escolhidos são os melhores alunos. Mas não são. Aqueles alunos que dão trabalho em sala de aula, aqueles que gostam de perturbar, nós fazemos o resgate deles. Nós convidamos esses alunos para trabalharem no Museu, para que com o dia-a-dia eles aprendam mais.

Jamilton Barbosa | Bom, o professor Marcos gosta de trabalhar com os problemáticos. Assim como eu, o Igor também era, digamos que, um desleixado. E também causávamos alguns problemas na escola. Então o professor selecionava esses problemáticos para trabalhar no Museu. Ele sempre nos motiva a estudar, mas também recompensa, como com essa viagem que estamos fazendo hoje. O professor Marcos já endireitou muitos cidadãos.

Professor Marcos | Eu escolho os alunos inteligentes, mas problemáticos. Alguns dos alunos selecionados queriam até bater na diretora da escola. Mas é esse menino que eu gosto de trabalhar. Então nós conversamos sobre o que está acontecendo. Sugiro que eles canalizem a raiva em algo produtivo e os convido para trabalhar no Museu. O objetivo é mostrar que esses meninos tem potencial e aproveitar isso bem.

ABC | O que o professor Marcos fez para que vocês deixassem de ser problemáticos e se tornassem propagadores do Museu?

Jamilton Barbosa | O professor Marcos gosta de instigar os alunos a estudar. Ele lança uma pergunta e deixa você numa inquietação, na vontade de querer saber mais sobre aquilo. É por isso que os alunos do Museu nunca param de questionar e estudar.

Igor Gois | A oportunidade que o professor Marcos me deu em trabalhar no Museu mudou minha vida completamente. Mas não é qualquer professor que faz isso. Pois isso não basta querer, isso é um dom. No Museu temos um colega que é um exemplo desse poder que o professor Marcos tem de transformar as pessoas. O menino tinha dislexia, e muitas pessoas afirmavam que ele nunca iria cursar a universidade. Hoje ele está fazendo licenciatura em geografia. O trabalho do professor Marcos é incrível. Ele mudou minhas atitudes. Hoje eu sou exemplo para os meus irmãos. Minha família tem orgulho de mim.

Professor Marcos | Na verdade, são eles que me encorajam. Eu conto um pouco da minha história para eles, que eu também tinha características iguais às deles quando estava na escola. Mas quando eu dei por mim, percebi que a função social da escola é estimular os alunos a gostar de estudar. E eu tento fazer isso. Tento explicar aos meus alunos que a educação é para a vida.


(Elisa Oswaldo-Cruz e Layssa Soares para NABC)



webTexto é um sistema online da Calepino