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ACADEMIA-EMPRESA

O presente e o futuro do agronegócio no Brasil

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Publicado em 16/03/2018

O vice-presidente da ABC, João Fernando Gomes de Oliveira ; o presidente da Embrapa, Maurício Lopes; e o presidente da ABC, Luiz Davidovich , compuseram a mesa de abertura do encontro

Um dos setores produtivos mais inovadores e que, apesar das adversidades, cresceu 13% no ano passado e contribuiu com 60% para a retomada do crescimento econômico do Brasil, o agronegócio nacional precisa se manter na vanguarda para não perder o bonde do desenvolvimento. De olho numa agenda que faça a agropecuária brasileira crescer de forma sustentável, inovativa e com o apoio da ciência, a Academia Brasileira de Ciências (ABC), em parceria com a Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii) e a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), promoveu a terceira edição do encontro Academia-Empresa.

O evento reuniu representantes de instituições acadêmicas e científicas, empresários, políticos e pesquisadores no auditório do Cenargen/ Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia em Brasília, na segunda-feira, 5 de março. Estiveram presentes Maurício Antônio Lopes, presidente da Embrapa e o pesquisador e ex-presidente da instituição Eliseu Alves; Jorge Guimarães, diretor-presidente da Embrapii; Márcio Miranda, diretor executivo, no exercício da Presidência, do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE), organização social supervisionada pelo Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC); e os deputados Celso Pansera (PMDB-RJ) e Hugo Leal (PSB-RJ).

Representando o empresariado, Eduardo Leão de Sousa, diretor da União de Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica), a maior organização representativa do setor de açúcar e bioetanol do Brasil; Paulo Hermann, presidente da John Deere Inova Máquinas, empresa especializada na produção de máquinas e equipamentos para agricultura, construção e indústria florestal; Rodrigo Santos, presidente da companhia de agricultura e biotecnologia Monsanto; e Jorge Espanha, diretor geral da Oxitec do Brasil, empresa que usa engenharia genética para controle de vetores e pragas que disseminam doenças e destroem culturas.

Discutir o cenário do agronegócio e, acima de tudo, realizar um diagnóstico que aponte como a relação entre universidades, institutos públicos de pesquisa e empresas pode ser melhorada foi o foco do encontro, conforme ressaltaram o presidente e o vice-presidente da Academia Brasileira de Ciências (ABC), Luiz Davidovich  e João Fernando Gomes de Oliveira .

"Queremos desvelar os obstáculos entre academia e empresa", sintetizou Davidovich. "O que podemos fazer para avançar mais rápido na cadeia produtiva de alimentos? O que é preciso acontecer ainda para que academia e empresas andem lado a lado?", questionou João Fernando de Oliveira à plateia.

Com a experiência de quem vê crescer, a cada ano a parceria entre institutos de pesquisa/universidades e empresários, o presidente da Embrapii, Jorge Guimarães, afirmou que a agropecuária precisa conhecer e se beneficiar do modelo de negócios proposto pela instituição. "Temos sistemas, recursos, mas porque não temos projetos no Brasil nesta área? O setor agro tem um potencial enorme mas ainda estamos sub-representados. Um cenário que era realidade no setor farmacêutico também, mas a partir de outubro do ano passado as empresas começaram a assinar acordos com as nossas unidades. Precisamos discutir mais ações em conjunto", disse Guimarães.

Segundo o presidente da Embrapii, cerca de 2,5% dos projetos que a instituição desenvolve estão na área agro. "Cerca de 60% das 42 unidades-Embrapii estão atacando a área de industria avançada, big data, nanotecnologia, bioeconomia e bioprodução, setores que podem beneficiar o agronegócio", disse Guimarães, que antecipou à plateia que a Embrapa e a John Deere já estão desenhando parcerias com a Embrapii.

Há quase 30 anos na Embrapa, o pesquisador e presidente da instituição, Maurício Lopes, fez questão de ressaltar que a antiga lógica de que apenas a Academia produzia ciência e a transferia para uma empresa ficou completamente no passado. Segundo ele, é preciso que cientistas e empresários pensem e atuem em rede. "Um paradigma em que ciência, inovação e empreendedorismo andam juntos. Com essa aliança estaremos melhor preparados para 2030 e para chegarmos em 2050", afirmou Lopes.

De acordo com o presidente da Embrapa, o agronegócio precisará se abrir para a computação em nuvem, a robótica, a inteligência artificial, a impressão 3D e 4D. Além disso, novos nichos de mercado e consumidores mais exigentes devem pressionar o setor que pode e deve se beneficiar da biodiversidade brasileira para crescer, promovendo um desenvolvimento sustentável. "O Brasil não parte do zero na bioeconomia. Estamos partindo para um modelo de produção integrada e sistêmica, em que a agricultura dialoga com o desafio de fazer produtos inovadores e que respondam aos anseios da sociedade. Isto é, uma agricultura de baixo impacto, baixo carbono, produzida de forma sustentável", destacou.

À frente da empresa de máquinas agrícolas John Deere, Paulo Herrmann disse que o agronegócio está sim atento à revolução tecnológica em curso. Segundo ele, o grande desafio é a conectividade. "No Brasil, as máquinas já estão equipadas com alta tecnologia. No entanto, elas só funcionam se tiverem conectividade. As empresas que operam telecomunicações estão interessadas apenas nos centros urbanos e não no campo", frisou Herrmann.

Outro desafio apontado pelo executivo é a falta de capacidade de gerenciamento nas plantações. "No Brasil, 100% da cana-de-açúcar é colhida mecanicamente. Mas ela tem 63% de seu tempo improdutivo, porque quando uma máquina acaba de colher, ela tem que aguardar uma segunda para fazer o transbordo, que muitas vezes demora. Temos que melhorar nossa eficiência e reduzir custos", afirmou.

O presidente da John Deere tocou ainda num outro aspecto: o da qualificação dos homens que trabalham no campo. "O Brasil hoje não usa mais máquinas obsoletas, competimos em pé de igualdade com a Europa. Mas nosso sistema de ensino e de formação de profissionais não evolui com a modernização das sementes, da genética e das máquinas. Nossa grade curricular não tem sido atualizada, enquanto a tecnologia muda a cada 6 meses. Estamos formando meninos e meninas desatualizados nas universidades", destacou.

Já o diretor executivo, no exercício da Presidência, do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE), Márcio Miranda, lembrou na necessidade de se melhorar a comunicação entre os variados atores do sistema agroalimentar. "Agências reguladoras, de fomento, instituições de C,T&I, indústrias e empresas de software, organismos internacionais e instituições reguladoras. É preciso que haja uma maior interligação desses setores. Não dá para cada um correr por um lado e proteger seus interesses apenas. Esses setores não são coordenados e muitas vezes entram em conflito", afirmou

Para Miranda, é preciso buscar o encontro de um denominador comum entre política industrial, ambiental e de inovação. "Isso deve ser pacificado por meio do Congresso. Vivenciamos conflitos intensos nestas áreas. É preciso ter o debate, para que o inovar e o que inovar não seja travado. Mas é preciso que haja o encontro do consenso", frisou Miranda, lembrando da presença dos deputados Hugo Leal e Celso Pansera no encontro.

Diretor executivo da Unica, Eduardo Leão de Sousa ressaltou como o consenso entre parlamentares ajudou o setor sucroalcooleiro. A aprovação rápida e unânime do projeto de lei, de iniciativa do Ministério de Minas e Energia, que cria o Programa RenovaBio, ainda em fase de regulamentação. "O programa trouxe novamente a bioenergia, incluindo o etanol, para a vanguarda do desenvolvimento do país. Acreditamos que o Brasil tem todas as vantagens comparativas para o uso do etanol", disse ele, ressaltando que o programa colocou o etanol novamente como uma política de estado, dando segurança e previsibilidade ao setor, o que deve permitir o retorno de investimentos.

Para Celso Pansera, a confiança de que a academia pode trabalhar em parceria com os empresários é um outro fator básico para que o diálogo entre os dois polos se fortaleça. Segundo o deputado federal, a partir da regulamentação do Novo Marco Legal da C,T&I, em fevereiro deste ano, a insegurança ficará para trás. "Temos que evoluir rapidamente neste quesito, para não levar a academia para o lado da judicialização da política", ressaltou.

Outro ponto em que o Brasil precisa evoluir é no quesito burocracia. Este é um dos empecilhos identificados por Jorge Espanha, da Oxitec do Brasil. Empresa conhecida por lançar o "Aedes do Bem", a Oxitec teve seu trabalho com as universidades em parte dificultado. "Há ainda uma batalha jurídica para se utilizar a tecnologia desenvolvida pela Oxitec. E temos que cumprir todos os caminhos para que o projeto não seja travado no processo. Um outro aspecto é a complexidade jurídica que essas parcerias envolvem", disse Espanha.

Segundo ele, por meio da Embrapii houve uma desburocratização na forma de se trabalhar. "O que abriu portas para continuarmos fomentando novas tecnologias na área do agronegócio por meio da parceria Embrapa e Embrapii", acrescentou.

Já para Rodrigo Santos da Monsanto, falta pragmatismo no Brasil. "É preciso que tenhamos legislações que incentivem a inovação e a tecnologia. Precisamos de política de governo com perspectivas de longo prazo, de até 20 anos, para que haja ações conjuntas que visem ao pragmatismo, como possibilidade. Ainda se tem uma visão na academia brasileira muito ideológica e pouco pragmática. Por que não podemos estabelecer parcerias como se vê em Harvard e no MTI?", questionou Santos.

No alto dos seus 87 anos de vida, o pesquisador e ex-presidente da Embrapa, Eliseu Alves, lembrou ao público presente um outro obstáculo realidade que há alguns anos vem atrasando o desenvolvimento da agroeconomia: a imperfeição de mercado. Segundo ele, se o país oferecesse condições competitivas para que os pequenos médios agricultores investissem em tecnologia, poderíamos ampliar a nossa capacidade de produção.

"Nossa agricultura é pujante, no entanto, feito por um grupo pequeno de agricultores. Nosso problema é de mercado. O estabelecimento da pequena produção vende muito barato e paga caro pela compra dos insumos. Logo, a tecnologia acaba não sendo lucrativa e por isso não é adotada. É o que chamamos de imperfeição de mercado", explicou Alves.

"No Sul do Brasil, onde essas imperfeição de mercado são menores, os pequenos produtores são mais bem sucedidos. Temos fortemente que trabalhar para eliminar as imperfeições de mercado se quisermos dar acesso, cada vez maior, aos produtores à tecnologia", alertou o ex-presidente da Embrapa, apontando que a imperfeição de mercado leva o Brasil a ter 100 milhões de hectares improdutivos.

Coordenador da terceira edição do Academia-Empresa, o diretor da ABC Elibio Rech  encerrou o encontro destacando que se o país atacar o problema da imperfeição de mercado, poderá em apenas um ano duplicar a produção agrícola. "Podemos duplicar simplesmente se incluirmos essa população que fica à margem da tecnologia. A união da iniciativa pública e privada com o parlamento é a única maneira de desenvolvermos a agricultura no país", afirmou.

Esta edição do encontro Academia-Empresa vai contar com a elaboração de um relatório, a ser produzido pelo membro afiliado da ABC Nicolau Brito da Cunha  (2016-2020). O documento vai auxiliar a criação da carta de propostas a ser encaminhada pela ABC aos presidenciáveis neste ano.


(Aline Salgado para NABC. Fotos: Divulgação/Embrapa e ABC)



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