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O desafio da pesquisa na Amazônia

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Publicado em 14/07/2014

A integração do Sudeste com a Amazônia foi pauta de discussão no 2º Encontro Regional de Membros Afiliados do Rio de Janeiro, realizado em maio na ABC, e tida como um das principais formas de estimular avanços na região. Conforme mostraram os palestrantes, o Norte do Brasil ainda tem grandes desfalques, que vão desde problemas ambientais à falta de recursos humanos qualificados.

A diretora do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IBCCF-UFRJ), Sandra Azevedo, é um exemplo de pesquisadora que se dedica há mais de dez anos à Amazônia. A bióloga faz parte do Instituto de Pesquisa Translacional em Saúde e Ambiente na Região Amazônica (INPeTAm), criado em 2008, que promove pesquisas no Norte na área ambiental e de doenças negligenciadas, como malária, leishmaniose e hepatites. Ele está integrado ao IBCCF, que tem uma experiência pioneira de 30 anos em estudos ambientais, principalmente em contaminação por mercúrio.

Em Rondônia, por exemplo, a degradação ambiental é um problema grave. O esgoto a céu aberto é uma realidade na capital, Porto Velho, e o reservatório de Samuel é afetado porque a bacia hidrográfica tem sido ocupada tanto pela população quanto por agroindústrias, sem um estudo prévio sobre esses impactos. Em Corumbiara, há muita poluição atmosférica que gera problemas respiratórios, e a região de Calama tem o maior índice de malária de que se tem notícia.

Parceria entre universidades

É com a proposta de acelerar a capacitação de recursos humanos - especialmente docentes - , consolidar áreas de pesquisa voltadas para questões regionais, fortalecer cursos de pós-graduação já existentes e implantar outros novos que, neste ano, surgiu uma parceria entre a UFRJ e a Universidade do Estado do Amazonas (UEA). Em fevereiro, aconteceu a primeira visita da equipe da UFRJ à instituição amazonense.

Segundo Sandra Azevedo, a UEA já tem uma boa infraestrutura de ensino: "Eles têm salas de aula especializadas. Nós estamos na frente porque temos consolidada a formação de massa crítica, mas lá tem a Fapeam [Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas], com muita vontade de dar recursos".

Para Azevedo, uma das prioridades é, além de capacitar recursos humanos, firmá-los na região, pois a identificação que eles têm com o lugar é proveitosa. "Também precisamos parar de achar vamos chegar na Amazônia e fazer safári science", criticou a bióloga. "Você não vai para um ambiente idílico estudar um bichinho estranho, ver coisas que nunca viu. Não vai ser diferente da periferia que conhecemos no Sudeste. Mas, se quisermos transferir qualidade de vida para aquela sociedade, esses problemas básicos precisam ser atacados."

A pós-graduação na região amazônica

O membro afiliado da ABC e pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) Milton Ozório Moraes falou sobre os desafios na integração entre Sudeste e Norte em relação à pós-graduação, mencionando, antes, a experiência que teve na área de doenças negligenciadas, em países como Moçambique e Haiti, além da própria Amazônia. Ele afirmou que tem aprendido muito ao viajar pelo Brasil, descobrindo as "doenças da pobreza": "Na Baixada Fluminense, por exemplo, tem muitos casos de hanseníase e de tuberculose".

Moraes focou, no entanto, na situação da pós-graduação na região Norte, que tem quatro vezes menos programas que o Nordeste e nove vezes menos que o Sudeste: são apenas 190, o equivalente a 5,3% do total do país. Enquanto Rondônia tem 21 bolsas de doutorado e o Amazonas tem 256, São Paulo tem quase 8 mil.

Além disso, 60% dos cursos no Amazonas têm nota 3, 30% têm nota 4 e 8% têm nota 5. Apenas um programa tem nota 6 - o curso de ecologia do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa). Sandra Azevedo acrescentou que, apesar desse cenário, existe demanda, e citou um curso de biotecnologia de um dos programas de pós-graduação do estado, que obteve 250 inscritos para 40 vagas.

Um banco de dados sobre plantas aromáticas

Joyce Kelly da Silva, pesquisadora do Laboratório de Engenharia de Produtos Naturais da Universidade Federal do Pará (UFPA), apresentou seu trabalho sobre plantas aromáticas da Amazônia. Em 500 expedições, seu grupo de pesquisa percorreu cerca de 50 mil km nos nove estados que compõem a Amazônia Legal, levantando a ocorrência dessas plantas, que são as produtoras de óleo essencial. Eles catalogaram cerca de três mil espécies diferentes e montaram uma base de dados.

"Nosso foco é em plantas endêmicas, mas acabamos encontrando outras", contou a química, a primeira da região Norte a ganhar o Prêmio L’Oréal-ABC-Unesco para Mulheres na Ciência, que recebeu em 2013. "A Amazônia ocupa 40% do território nacional, e encontrar uma molécula bioativa na biodiversidade amazônica é como achar uma agulha no palheiro."

A base de dados possibilita a busca por espécies, por uso medicinal ou atividade biológica, descrição botânica, composição química, local da coleta, entre outros aspectos. A ferramenta mostra os usos populares da planta, como analgésico, antiespasmódica e antigripal. "A ideia é um dia disponibilizar a base de dados para a comunidade científica", afirmou Silva.


Amostra da base de dados de plantas aromáticas que faz parte do trabalho
da química Joyce Kelly da Silva

Primeiro, é feita a coleta e identificação botânica (etapa que tem parceria com o Jardim Botânico do Rio de Janeiro), depois é feito o processamento e extração do óleo essencial e, em seguida, faz-se a seleção das espécies pelo rendimento em óleo, composição química e uso popular.

A pesquisadora citou algumas espécies promissoras, como a "falsa canela", que já produz um composto praticamente puro - de 70 a 92% no óleo essencial. "É muito fácil purificar, e a síntese dessa molécula é muito simples." Ela tem atividade anti-inflamatória, efeitos cardiovasculares e também pode ser usada como perfume e antioxidante.

A atuação da L’Oréal

A gerente de Open Research da L’Oréal Brasil, Fabiana Munhoz, falou sobre as iniciativas da empresa na região amazônica que promovem a valorização da biodiversidade brasileira como fonte sustentável de ingredientes cosméticos inovadores. Segundo a física, o investimento em pesquisa da companhia cresce todos os anos e, hoje, é de quase 4% do faturamento.

A partir de 2005, a L’Oréal passou a atuar nos países emergentes, constituindo seis polos regionais com 23 centros de pesquisa, 16 centros de avaliação e 49 departamentos científicos e técnico-regulatórios. "Buscamos sempre formulações menos agressivas ao meio ambiente", informou Munhoz, acrescentando que a empresa também não testa produtos em animais há mais de dez anos.

No Brasil, os dois focos de pesquisa são a biodiversidade e biotecnologia - levando em conta o fato de o Brasil ser pioneiro da produção de etanol. 34% do portfólio de matérias-primas da L’Oréal são de origem vegetal, cujo processo tem menos etapas, gerando economia de energia, menos resíduos e custo menor.

Em relação ao uso da biodiversidade da Amazônia pela empresa, o foco são os produtos capilares: manteiga de murumuru, óleo de pracaxi e buriti são alguns exemplos. "Os óleos vegetais são usados em substituição aos minerais, pois queremos valorizar os ativos da região." Sobre o impacto socioambiental na região, Munhoz informou que há uma equipe que trabalha com solidarity sourcing. "Avalia-se o quanto de semente por ano é necessário para a produção, o quanto de óleo vegetal e receita adicional, quão benéfico está sendo para as famílias etc."


(Clarice Cudischevitch para NABC)



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