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CIÊNCIA NA MÍDIA

Cientistas têm que mostrar eficiência, diz diretor científico da Fapesp

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Publicado em 15/12/2017

A atual crise de financiamento da pesquisa científica é um dos temas mais discutidos no ambiente acadêmico brasileiro. O orçamento minguou e muitos grupos não têm conseguido manter suas atividades normais.

Para o engenheiro eletrônico e diretor da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, maior agência estadual de fomento do país), Carlos Henrique de Brito Cruz , 61, além de lutar por mais recursos, os cientistas deveriam se preocupar também com a eficiência no uso deles. "Quando há escassez cresce a cobrança por resultados imediatos do dinheiro proveniente de impostos."

Em entrevista à Folha, concedida em seu gabinete, ele defende mensurar essa eficiência com, por exemplo, o número de empresas gestadas dentro de uma universidade ou criadas por seus egressos.

Folha - Como caracterizar a crise de financiamento da ciência?
Brito Cruz - Há uma crise de financiamento de tudo que depende de arrecadação de impostos no Brasil –ciência, saúde, educação, segurança, rodovias, energia

Há despesas não eletivas, como folha de pagamento e aposentadoria. E a constituição manda gastar um percentual com educação, com saúde. Na área de ciência e tecnologia existe um descompasso entre a grande restrição orçamentária nas despesas do MCTIC com a restrição orçamentária no MEC, menor.

Como a maior parte do gasto federal com ciência e tecnologia vem do MEC, a maior parte desse gasto está menos comprimida, e a menor parte, do MCTIC, mais comprimida.

Do lado do MEC garante-se o salário dos professores de universidades, mas para eles fazerem pesquisa é necessário verba do CNPq ou da Finep. O sistema fica desequilibrado.

Há uma participação importante do setor privado nos investimentos no país, não?
No Brasil, a participação do setor privado no gasto com pesquisa e desenvolvimento é de cerca de 40% do total. Com a crise, porém, ela foi prejudicada: continua 40%, mas são 40% de um valor menor que os R$ 70 bilhões gastos em 2014 (R$ 28 bi).

A crise de financiamento não é uniforme em todas as regiões do país, certo?
No Estado de São Paulo, onde o gasto federal é a menor parte, o efeito da crise é menor. Aqui 60% do gasto é das empresas e 23% do Estado. Só aí já deu 83%.

Nos demais Estados, analisados em conjunto, o gasto federal chega a dois terços. Aí o efeito da crise é enorme.

Há modelos de financiamento que atenuem essa situação?
Em SP, onde o governo tem uma política previdente sobre os gastos estaduais, as crises são atenuadas. Em vez de uma baixa de 30% nos recursos, a queda é de 3% ou 4% –aí é possível acomodar as finanças. Em outros Estados, a responsabilidade fiscal dos governos poderia atenuar a crise. A Fapesp continua recebendo 1% da receita tributária de SP.

O desenvolvimento de parcerias para cofinanciamento também pode ajudar. Um projeto que iria custar X, pode custar a metade disso porque você está fazendo em conjunto com alguma agência de outro país, com uma empresa que vai custear a outra metade.

Essas ideias são medidas paliativas, não soluções. A situação criada no Brasil está gerando sofrimento.

A demanda por recursos deveria vir com uma discussão sobre eficiência no uso deles?
É um ponto muito importante. A ciência merece ser financiada quando é boa, quando tem bom impacto intelectual, econômico, social ou os três.

Está na hora de buscarmos mais qualidade na pesquisa e em seus resultados e caminharmos de métricas baseadas na quantidade para aquelas baseadas na qualidade.

Isso inclui, por exemplo, ter uma discussão sobre quantos doutores precisam ser formados no Brasil por ano e qual é a qualidade da formação que está sendo oferecida.

De que maneiras é possível mensurar essa eficiência?
Você pode medir quantos artigos publicados tem ao menos um autor numa universidade e outro numa empresa. Isso mostra a intensidade dessa interação. Em São Paulo o crescimento desse número nos últimos anos é exponencial.

Outra possibilidade, muito usada por universidades no exterior, é aferir quantos dos egressos criam empresas em setores mais modernos, que poderão ajudar a renovar o ambiente industrial do país. Ao se comparar a Unicamp com universidades americanas nesse quesito, ela não fica mal.

Dá para saber o prejuízo causado pela atual crise?
As cifras que aparecem são muito desencontradas. Se pensarmos na economia, talvez um número crível seja o PIB per capita do Brasil, que voltou ao valor de 2009 ou 2010.

Não parece que a ciência sempre perde na briga por verba?
É mais difícil para a ciência e tecnologia do que para um hospital demonstrar os benefícios que ela traz.

Hoje se produz mais alimentos porque há anos houve investimento em pesquisa na área da agricultura; se mais impostos são recolhidos porque fabricamos aviões, é porque houve pesquisa que ajudou o país a fabricá-los. Em casos como esses, houve pesquisa e esforço. Se há uma cisão no aporte financeiro, há grandes chances de haver sofrimento no futuro.

Não fica a impressão de que só vale a pena investir em pesquisas aplicáveis, em detrimento da pesquisa básica?
Quando há escassez cresce a cobrança por resultados imediatos do dinheiro proveniente de impostos, inclusive aquele que vai para ciência e tecnologia. É natural.

Um matemático que recebe a medalha Fields, por exemplo, traz orgulho para seu país.
Sim, ele mostra que a gente é capaz. A ciência tem essa complicação, ela não pode ser valorada de uma maneira exclusivamente utilitária.

O fato de existir atividade científica competitiva em nível mundial mesmo em temas nos quais os benefícios não vão aparecer na semana que vem, favorece também pesquisas e treinamentos em áreas mais práticas e imediatas.

Não é "uma causa e um efeito", simplesmente. São causas difusas e efeitos que só virão dali um tempo.

A razão pela qual o contribuinte aceita que se use o dinheiro dele para financiar pesquisa é que ele espera algum tipo de benefício: 1) a pesquisa melhora a vida na sociedade, 2) faz a economia funcionar melhor, e/ou 3) traz conhecimentos que a sociedade brasileira ou internacional valorize, tornando-a mais sábia, por exemplo.

A questão é ter um equilíbrio dessas três coisas, e ele pode ser diferente de acordo com a época.

O que o sr. pensa de iniciativas como as Marchas pela Ciência?
Acho legítimo, como outras várias iniciativas de organizações científicas e de pesquisadores para tornar a atividade científica mais visível.

Mas acho que tem de haver equilíbrio nas ações em defesa da ciência e de seu financiamento público. Não se deve exagerar ou criar uma perspectiva de catástrofe para amedrontar pessoas visando o financiamento.

Pode acontecer o efeito contrário, as pessoas podem dizer: "Se está tão ruim isso aí, para que pôr mais dinheiro?".

Além de evitar o catastrofismo, como esse debate poderia ser conduzido?
Valorizar e demonstrar de maneira eficaz as realizações passadas ajuda. Ajuda mais se isso for feito continuamente –não só na época de crise, mas também na de bonança.

Mas é uma discussão na qual nem sempre os atores conseguem manter equilíbrio e racionalidade. Tem gente vendo o salário não vir e o laboratório ao qual se dedicaram anos e anos ser sucateado sem manutenção. É difícil!

Como o sr. vê iniciativas como o Instituto Serrapilheira e o fundo privado recentemente anunciado pelo governo para financiar pesquisas de ponta?
Acho muito positivas. Quanto mais você aumenta a diversidade de fontes de financiamento, mais sólido fica o sistema. Se uma sofre, outra pode compensar.

O Serrapilheira é uma ótima iniciativa. Sobre o fundo da Capes, eu não conheço os detalhes, mas buscar outras maneiras de ter recursos para financiar a pesquisa é sempre uma boa coisa.

Em abril, a Fapesp anunciou que iria bloquear recursos para universidades que não tivessem órgãos dedicados a promover a integridade científica, como está essa questão?
Está avançando. Estabelecemos no documento de financiamento à pesquisa que os pesquisadores e as instituições assinam com a Fapesp o compromisso de que as universidades tenham esses órgãos. Estamos trabalhando com as instituições para incentivá-las e ajudá-las a criar tais órgãos

A UFABC foi a primeira a ter um. A USP acabou de definir uma sistemática muito avançada para esse fim e a Unesp deve anunciar em breve.

Também incentivamos as universidades a criarem escritórios cuja função é ajudar o pesquisador a montar um projeto de pesquisa e a geri-lo quando este for aprovado. A ideia é que o pesquisador não tenha o seu tempo onerado com tarefas que não sejam científicas, que é o que todas as boas universidades do mundo fazem.

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Raio-X
Nascimento
19 de julho de 1956, no Rio

Formação
Graduação em engenharia eletrônica pelo ITA, mestrado e doutorado em física pela Unicamp

Trajetória
Foi pesquisador nos Laboratórios Bell, da AT&T, entre outras entidades. Foi reitor da Unicamp de 2002 a 2005 e presidente da Fapesp entre 1996 e 2002. Desde 2005 é diretor científico da entidade


(Gabriel Alves e Fernando Tadeu Moraes, Folha de S. Paulo, 15/12/2017. Fotos:
Karime Xavier/Folhapress
)



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