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Ciência para quem não é cientista

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Publicado em 27/08/2013

O 7o Encontro Preparatório para o Fórum Mundial de Ciência ocorreu no campus da Universidade de Brasília entre os dias 22 e 23 de agosto. Foi o último encontro antes do Fórum, que ocorrerá em novembro no Rio de Janeiro, pela primeira vez fora da Europa.

Com o tema "Ciência para o ambiente e a justiça social", o evento reuniu várias lideranças da comunidade científica brasileira, que fizeram uma avaliação desses encontros preparatórios e expuseram suas expectativas para o Fórum durante a cerimônia de abertura. E num intervalo entre sessões, o Acadêmico Isaac Roitman , integrante da comissão organizadora do Encontro, concedeu a entrevista a seguir na qual defende a aproximação entre os campos da ciência para que suas proposições gerem as mudanças necessárias na sociedade.

Isaac Roitman é professor emérito da Universidade de Brasília (UnB), coordenador do Núcleo do Futuro da UnB (Ceam/UnB) e membro titular da Academia Brasileira de Ciências desde 1995.

NOTÍCIAS DA ABC| É possível destacar uma singularidade do 7º Encontro Preparatório se comparado aos anteriores?

ISAAC ROITMAN| Após fazer um exame dos encontros anteriores, a comissão de organização do sétimo encontro preparatório propôs aos seus realizadores - entre os quais estão a Academia Brasileira de Ciências (ABC), Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) - que as conferências abrangessem os diversos ramos da ciência, incluindo as ciências humanas e sociais. Isto porque, além da divisão entre as disciplinas, a ciência costuma ser dividida entre ’hard’ e ’soft science’ e, apesar dos esforços pela interdisciplinaridade, o distanciamento entre essas áreas persiste.

Neste sentido, foram organizadas conferências de cientistas de áreas que, até então, tiveram pouca participação. Também propusemos que as mesas fossem compostas por cientistas de especialidades distintas. E isto, desde o início do evento, já está mostrando bons resultados através de debates amplos e embasados por conhecimentos diferentes, mas bastante complementares. Além disso, para que o debate sobre os temas do meio ambiente e da justiça social causem impactos benéficos para a sociedade a curto, médio e longo prazo, é necessário que os sociólogos, antropólogos e outros pesquisadores das ciências sociais participem.

Outra característica importante desse evento é mostrar as pesquisas produzidas no centro-oeste para a comunidade científica brasileira. Se comparado à região sul e sudeste, o centro-oeste é menos noticiado. No entanto, há pesquisas importantes em andamento nos estados de Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, que precisam ser conhecidas e debatidas nacionalmente.

NABC| Os temas desse encontro e do Fórum Mundial de Ciência têm um profundo apelo social. Pode-se dizer que os cientistas estão unidos em busca de soluções para os grandes problemas enfrentados pelo Brasil e o mundo?

ROITMAN| Sim, eles estão reunidos com esse objetivo, mas a tarefa é árdua pois requer o envolvimento de outros setores. Os eventos científicos geram análises de grande interesse para sociedade, que são esmiuçados ou sintetizados conforme publicados em documentos. Este ano, por exemplo, a Assembleia Geral da Rede Global das Academias de Ciência (IAP) ocorreu no Brasil, realizado pela Academia Brasileira de Ciências, e gerou um belo documento a respeito de "Ciência para a desenvolvimento sustentável e a erradicação da pobreza".

A reunião de grandes cientistas durante o Fórum Mundial de Ciência, cujo tema é "Ciência para o desenvolvimento global", certamente resultará em outro ótimo documento. Isto prova que os cientistas estão reunidos em torno dos grandes problemas enfrentados pelo mundo. No entanto, a influência deles no protagonismo político continua insuficiente dentro e fora do Brasil. Vou oferecer um exemplo de uma área que sempre foi problemática no país: a educação. Em 1932, houve um manifesto dos pioneiros da educação leia o documento que fazia um diagnóstico da educação a partir das análises de 21 dos maiores intelectuais brasileiros na época; o segundo manifesto dos educadores foi publicado em 1959, e reuniu 160 intelectuais, entre eles Sérgio Buarque de Holanda, Florestan Fernandes, Anísio Teixeira leia o documento; ambos os documentos continuam atuais, lá estão os problemas de hoje e boas soluções. Isto mostra que é difícil que as proposições da academia, dos intelectuais, dos cientistas sejam incorporadas na política nacional.

Por isso, é importante que a comunidade científica permaneça unida - incluindo áreas e gerações distintas - para analisar a realidade brasileira e mundial. Mas o maior desafio é encontrar uma forma para que os cientistas sejam compreendidos e ouvidos e para que as suas proposições realmente sejam aproveitadas.

NABC| Ouvidos e compreendidos por...

ROITMAN| Por todos. E isto pode ser alcançado com educação de qualidade, desde a educação básica até as universidades e as pós-graduações, que valorize o ensino de ciências. Também será necessário que a mídia veicule a pauta da ciência, o que pode ser alcançado com divulgação e jornalismo científico, ou seja com cientistas que trabalhem como jornalistas e jornalistas que conhecem o trabalho científico. Com isso, a sociedade valorizará a ciência, reconhecerá nela soluções para problemas nacionais e mundiais e se mobilizará para que esse conhecimento seja considerado na formulação política.


(Davi Padilha Bonela para Notícias da ABC)



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