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DIVULGAÇÃO CIENTÍFICA

“Brasil é um paraíso para se trabalhar em produtos naturais”

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Publicado em 6/03/2018

A paraibana Vanderlan da Silva Bolzani  [membro titular da Academia Brasileira de Ciências] tem destacada atuação na Ciência Brasileira. Por um golpe do destino, ficou sem orientador antes de ingressar no Mestrado na USP e acabou sendo orientada por Otto Gottlieb, um dos grandes nomes da Ciência Brasileira e um dos maiores na área de produtos naturais. Voltou para dar aula na UFPB, mas não conseguiu mais se adaptar ao ritmo do lugar e rumou outra vez para São Paulo, onde vive há 40 anos entre a capital e Araraquara. As suas pesquisas em química de produtos naturais já lhe renderam 24 prêmios e títulos, entre os quais o Prêmio Jovem Cientista, do CNPq, em 1984 e o Prêmio Kurt Politzer de Inovação Tecnológica, da Associação Brasileira das Indústrias Químicas (Abiqui), em 2015. Nossa Ciência ouviu a professora Vanderlan, em sua sala de trabalho na Agência de Inovação da Universidade Estadual Paulista (Unesp), da qual é diretora executiva.

Nossa Ciência: Quais são suas lembranças de infância, que poderiam demonstrar algum interesse pela ciência?

Vanderlan Bolzani: As meninas tinham que brincar de bonecas, de casinha e eu achava muito sem graça, adorava brincar com os meninos de bolinha de gude, de pinhão porque tinha que competir. Minha mãe, uma legítima descendente de portugueses, que estudou em colégio de freiras e como as senhoras daquela idade, não gostava. Então se eu estudasse bastante e fosse bem na escola, podia dar umas escapulidas de vez em quando.

NC: Como optou pela Química?

VB: A minha formação de ensino médio foi toda pública no Liceu Paraibano, em João Pessoa. Na década de 1960, o mais comum era a gente escolher entre Medicina, Engenharia e Direito. Eu escolhi Medicina e fiz até o segundo ano, mas não gostei e resolvi trancar o curso por dois anos. Fiz vestibular de novo para Farmácia e Bioquímica na Faculdade de Ciências Farmacêuticas, também na Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Conclui o curso de Farmácia, desisti da Medicina e não me arrependo. A Farmácia tem um ciclo básico, que tem muita disciplina focada em Química Orgânica e Bioquímica, que era todo feito no Instituto de Química e eu me identifiquei bastante, eu adorava os cursos de Química Orgânica.

NC: Quando saiu da Graduação em João Pessoa para o Mestrado em São Paulo, a senhora já sabia que queria ser cientista?

VB: Dizem que os mestres traçam caminhos e eu acho que um dos caminhos que me trouxe para a Ciência e para a pesquisa foi muito por influência do professor Vilmar Nunes de Souza, de Química Orgânica, na Graduação em Farmácia. Quando eu terminei, decidi fazer Mestrado aqui na USP. Assim como na mudança de curso de Medicina para Farmácia, novamente meu pai e minha mãe me deram a maior força, mesmo sem saber como iriam manter uma filha em São Paulo, porque isso era coisa para gente muito rica, mas mesmo assim eles me bancaram Eu sabia que queria estudar, mas não tinha noção de ser cientista ou profissional na área da Farmácia, se montaria um laboratório de análises clínicas ou iria para a indústria farmacêutica. Foi em São Paulo com o professor Otto Gottlieb que eu decidi que queria ser cientista, terminar o Mestrado e fazer pesquisa em produtos naturais.

NC: Como foi a chegada em São Paulo?

VB: O primeiro impacto que eu tive foi quando eu senti o preconceito entre as regiões ricas e as regiões pobres do país. Mesmo não sendo uma moça rica, filha de usineiro, a gente tinha boas condições de vida no meu ambiente, mas na USP, uma universidade muito elitista, uma estudante nordestina tinha que fazer muitos cursos porque achavam que a minha formação não era muito boa. Eu vim para trabalhar com o professor Paulo de Carvalho , que tinha sido orientador de Mestrado do professor Vilmar de Souza. Um dia antes da nossa primeira reunião, ele teve um infarto e morreu. Eu fiquei como a graúna desgarrada, meio perdida, sem saber se voltava ou se ficava, não conhecia ninguém aqui.

NC: O que aconteceu depois disso?

VB: No Instituto de Química da USP, eu comecei a ver a dura realidade, a competitividade, as relações de poder, mas eu estava firme, estudando para a prova de Mestrado. Um dia, alguém me apresentou ao professor Mário Motidome e contou a ele a minha história. Ele, que era muito amigo do professor Paulo de Carvalho, me disse para lhe procurar. Em sua sala no Bloco 11 do Instituto de Química, ele me falou que trabalhava com produtos naturais e que se eu quisesse, poderia ficar lá. Ele me orientaria, eu iria aprendendo um pouco, até ocorrer a prova e eu escolheria alguém para ser meu orientador e eu fiquei animada.

NC: Foi então que a senhora conheceu o seu futuro orientador?

VB: Sim. O chefe do Laboratório era um dos grandes nomes da Ciência Brasileira e um dos maiores na área de produtos naturais, o professor Otto Gottlieb. Ele falava muito das culturas, da importância das plantas, da importância da biodiversidade, do conhecimento tradicional e eu fiquei fascinada. Passei na prova e comecei a fazer Mestrado em produtos naturais, mas eu acho que o gosto talvez eu já tivesse sem muita consciência, talvez pelo atavismo do sangue indígena do meu pai, de carregar a inscrição genética de gostar da natureza. Como orientanda do professor Otto, eu fui a primeira bolsista Fapesp, que não era do Estado de São Paulo.

NC: Depois do Mestrado, houve um retorno à Paraíba…

VB: Depois que eu terminei o Mestrado, recebi um convite para ser professora adjunta no Instituto de Química da UFPB e eu achei que seria maravilhoso, seria retornar à terra natal com conhecimento e poder contribuir na minha universidade. Nesse período eu já estava casada com um paulistano, que fez Sociologia na USP e quis ir para o Nordeste porque ele achava que lá tinha muito a ser feito, principalmente por um sociólogo. Voltamos para João Pessoa, eu para a UFPB e ele para uma universidade particular. Ele acostumado com São Paulo, adorava praia, mas detestava tudo: o jornal da cidade, o fato dos jornais Estadão e Folha de S. Paulo só chegarem à noite. Eu terminei o Mestrado e queria fazer Doutorado, mas lá eu só dava aula. Numa conversa com meu orientador, ele disse que se eu pudesse vir para São Paulo seria melhor para minha carreira. Eu decidi vir para me matricular no Doutorado para não perder a sequência. Naquela época, João Pessoa não tinha aeroporto.

NC: Outra vez, um encontro fortuito fez a sua vida mudar o eixo. Como foi?

VB: Eu fui para o aeroporto em Recife e levei minha filha, que ainda era bebê, para vir fazer a prova de francês já para o Doutorado. No avião, sentei do lado de uma senhora, que entre uma conversa e outra, falou que estava admirada com minha menina, que não chorava. Ela era Maria Aparecida Pouchet Campos, diretora da Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Araraquara da Unesp e me convidou para criar um grupo de pesquisa de produtos naturais na Farmácia.

NC: A senhora aceitou?

VB: E eu fui morar em Araraquara, fiquei na Farmácia, foi então que eu fiz meu primeiro projeto de pesquisa, já me estruturando como professora assistente, com uma linha de pesquisa, comecei a pesquisar rubiáceas, que era uma coisa que eu já tinha começado no meu Doutorado, com meu orientador me dando um suporte. Mas nesse período, já estruturada, já professora, dando aula, já com laboratório, o meu marido teve um AVC isquêmico, com 38 anos. Os meninos eram pequenos e foi uma avalanche porque eu estava começando a montar a carreira e ele ficou muito mal.

NC: Como esse fato afetou a rotina da família?

VB: Ele veio para São Paulo para a casa dos pais, a família dele tinha condição, ele ficou um tempão no Einstein, gastou todo o dinheiro que tinha, tinha que fazer sessões de Fonoaudiologia, Fisioterapia, um monte de coisa. Eu fiquei lá, minha filha estava com seis anos e meu filho com quatro. Todo fim de semana eu vinha. Numa dessas vindas, eu vinha sozinha e capotei o carro várias vezes. Então eu pedi um afastamento, que eu tinha direito, e vim para São Paulo, na casa dos pais dele até que compramos uma casa. Depois voltamos para Araraquara, eu para as atividades e ele já aposentado. Ele ficou hemiplégico, tinha hora que falava as coisas, mas tinha hora que esquecia completamente e foi uma época dura, muito dura.

NC: Com a volta a Araraquara, a senhora deu continuidade a sua carreira?

VB: O tempo passou e um dia ele disse que eu não ia progredir na minha carreira, que eu tinha que ir para os Estados Unidos, para o Pós-Doc e que ele iria para a casa da mãe dele. Naquele momento eu fiquei até brava, achei que ele estava me despachando, mas depois eu entendi a dimensão da grandeza da alma. E eu fui para os Estados Unidos sozinha com os dois meninos fazer Pós-Doc no Virginia Polytechnic Institute and State Univerty. Foi uma experiência maravilhosa, inclusive para as crianças. Mariana já estava com 14 anos e Thiago, com 12. Eu produzi bastante nessa época, conheci muita gente e quando eu voltei, eu consolidei um Laboratório de Produtos Naturais em Araraquara.

NC: A Química é bastante citada em oposição à natureza, mas a senhora trabalha com a química da natureza…

VB: Para se trabalhar em produtos naturais, aqui nós temos um verdadeiro paraíso, um belo laboratório químico, altamente sofisticado. Temos uma biodiversidade riquíssima, pouco estudada. Entender a natureza, do ponto de vista químico é uma beleza. Entender esse ambiente nos dá a capacidade de projetar o futuro, manejar uma floresta, conhecer a química que tem por trás disso, os mecanismos envolvidos, as espécies, como elas produzem e o que podem produzir, como se pode ou não devastar, o que se pode tirar de proveito dessa fonte inesgotável de bioprodutos, inclusive de alto valor agregado. O nosso percurso no começo era para entender as moléculas, determinar suas estruturas, depois saber a atividade biológica e farmacológica, saber aquilo que pode ser útil para a espécie humana.

NC: Dizem que nordestino, quando vem para o sudeste, tem que ser duas vezes mais competente para ocupar espaços semelhantes aos do lugar. A senhora reconhece isso como verdadeiro?

VB: Não sei, eu particularmente não tenho motivos para concordar com a frase, mas acho que ela é real em algumas situações. Na minha carreira como um todo não tive problema. O componente ser nordestina e ser mulher se acirra quando se ascende na carreira. A Unesco, com apoio da L’Oreal, vai fazer uma campanha mundial para estimular o interesse de mulheres e meninas por ciência, porque só 18% das mulheres no mundo são cientistas. No Brasil, os números se repetem. A Academia Brasileira de Ciências tem 13,5% de mulheres acadêmicas, mesmo o (ex-presidente Jacob) Palis fazendo uma campanha enorme. Quando a mulher ascende, ela encontra preconceito. Nas áreas das Ciências Exatas, elas são maioria como bolsistas de Iniciação Científica, de Mestrado, Doutorado, mas quando vai ascendendo na carreira, são minoria como professoras titulares, nos Conselhos da Fapesp ou nos Conselhos do CNPq.

NC: Então é mais difícil ser mulher do que ser nordestina na ciência?

VB: Eu acho que as duas coisas são difíceis. Eu posso dizer que tive um ambiente favorável, mas eu sempre fui muito obstinada no que eu quis fazer. Eu fui a primeira mulher a chegar à presidência Sociedade Brasileira de Química (SBQ) e integrar o Conselho Deliberativo no CNPq na área das Ciências Exatas. Na SBQ, a prática era o vice-presidente ser escolhido pelo Conselho como próximo presidente. Quando foi no meu caso, eu me manifestei que gostaria de me candidatar à presidência e fui apoiada, mas fazia muito tempo que as eleições eram com candidato único e na minha vez teve outra candidatura do e eu ganhei por 29 votos. Atualmente sou membro do Conselho Científico da L’Oreal, em Paris, que é só para discutir ciência, formado por cinco mulheres e quatro homens.

NC: na sua trajetória, o que lhe dá mais prazer: bancada ou sala de aula?

VB: É uma dureza de responder. Eu sempre achei que dar aula faz parte de pesquisa. Essas coisas andam muito juntas. Ensino de qualidade muito bom tem que ter uma pesquisa muito forte também. Eu gosto da sala de aula, mas atualmente não tenho muita paciência, por causa do nível dos alunos. Agora, eu estou superinteressada em fazer alguma coisa de divulgação da ciência, para ver se estimula as crianças para a ciência. Isso me atrai muito.

NC: Como a senhora analisa a relação entre conhecimento e mercado?

VB: Depois de minha passagem na Agência de Inovação a Unesp, eu entendo que conhecimento bom gera produto. Não precisa ser imediato, o próprio conhecimento já é inovação, é produto e é risco. Uma sociedade que consegue transformar conhecimento em bens, começa a se tornar forte e robusta. Nós fizemos um trabalho fascinante com soja, é uma coisa linda, poderia até ter trazido o Prêmio Nobel. Agora compare quanto custa a tonelada de soja, que o Brasil exporta, e quanto custa alguns miligramas de isoflavona de soja, que é uma substância fina que já foi manipulada, é a alta tecnologia.

NC: Estamos no rumo certo?

VB: Nós temos grupos nesse país de altíssima excelência, mas essa conexão com a inovação ainda está muito fragilizada. Cada dia mais eu me convenço que o país entrou num beco, com essa história de virar país de serviço, trazer tudo da China e da Índia, mesmo tendo uma ciência muito boa e isso pode ser muito ruim para o nosso país. Na Idade Medieval, o homem vivia 45 anos, hoje chegamos a 100 e isso é ciência, muita ciência transformada em inovação e bem estar social.

NC: Como a senhora afirmou, o Brasil exporta commodities e importa tecnologia. Qual é o caminho que vai ligar o conhecimento à transformação em riqueza no Brasil?

VB: Eu sou esperançosa. Eu acho que nós já avançamos muito. Aqui temos os dois lados. Tem uma parte na universidade que está olhando muito à frente, que percebe que faz ciência boa e que quer contribuir cada dia mais e ver como pode fazer ciência básica e ao mesmo tempo está junto tentando trabalhar com o setor empresarial, de modo a gerar algum bem, algum benefício, alguma coisa útil; ao mesmo tempo que temos empresários que são muito conservadores, que viveram a vida inteira com medo do risco. Tem muitos encargos, o custo Brasil é muito alto, eu consigo entender tudo isso, mas eu acho que cada dia você tem que ir avançando e essas barreiras se diluindo, primeiro porque para você sobreviver no mundo global, tem que ter muita ousadia. Nós temos muita coisa favorável, temos um território enorme, recursos naturais e um corpo de ciência bom, o que nós precisamos mais é investir em alta tecnologia e para isso é preciso o setor empresarial. Não vamos fazer tecnologia nem inovação na universidade e nem nos institutos de pesquisa, a nossa missão é gerar conhecimento e conhecimento bom pode trazer riqueza.

NC: Os pesquisadores – e se isso não é papel deles, de quem é – vão conseguir mostrar aos empresários que estes precisam fazer sua parte?

VB: Eu acho que já temos muita coisa sendo feita. O que eu acho também é que o país precisa ter uma diretriz de política de estado para a educação, que vem antes da ciência. Sem educação, nós não temos futuro. A educação está muito complicada não apenas porque é a educação pública, muitos professores ganham uma miséria, são despreparados ou não tem infraestrutura. Algumas escolas particulares, que se paga muito, quando se vai olhar o conteúdo delas, fica preocupada mesmo. Educação é um problema no mundo inteiro, mas nós precisamos estar muito atentos, todas as áreas do conhecimento tem que estar no mesmo nível e isso é uma questão do Estado. Muito mais urgente do que o lado acadêmico que se construiu ao longo desse tempo, e esse lado empresarial é o estado saber gerenciar esses dois universos de uma forma que se sabe que as linguagens são diferentes, mas tendo um interlocutor com certeza, isso vai gerar benefício a médio e longo prazo.

NC: Essa falta de Política de Estado é histórica?

VB: Se a gente olha para trás, nós não temos um programa de estado. Não é só privatizar tudo ou estatizar tudo. É preciso um estado que veja esse universo globalizado e que se coloque no meio dele para competir. Investir em educação, ciência, tecnologia e inovação. Isso é uma sequência e um país não pode ser soberano se ele não tiver esse eixo de excelência e de qualidade, vai estar sempre fragilizado. Nós somos assim com altos e baixos e isso também contribui para uma lentidão muito grande para aquilo que nós achamos que o Brasil é capaz. Mas eu acho que a ciência avançou muito, no nordeste inclusive. Temos grupos excelentes.

NC: O Brasil ocupa boa posição no mundo no que se refere à ciência?

VB: Sessenta por cento da produção científica nacional é do sudeste, mas para qualquer efeito de comparação, o Brasil não é sudeste e é preciso fazer a estatística da média desse país inteiro e quando se faz a média vai lá pra baixo porque a região norte, enorme é ainda muito desproporcional com relação à pesquisa, à concentração de doutores, aos grupos consolidados. Esse também é um grande problema do Brasil, um país enorme, de dimensão continental e muito regionalizado, com disparidades muito grandes. Num país tão desigual a ciência ainda tem muito a fazer.

NC: quando voltou para João Pessoa, ao final do Mestrado, a senhora já se percebeu paulista?

VB: Não. Eu adoro ir para minha casa, tenho muitos amigos, trabalho com muita gente lá; até hoje eu mantenho minhas características de nordestina. No período junino, eu ainda coloco bandeirinhas em casa, compro pamonha e chamo meu netinho para ele conhecer a história da festa junina. E quando eu estou muito brava, as pessoas perguntam de que lugar do nordeste eu sou e eu estou aqui há 40 anos. Eu acho que ainda tenho meus traços bem arraigados. A minha cultura, eu gosto da minha música, não gosto do sertanejo daqui. Eu ainda me identifico muito com minha terra.


(Nossa Ciência, 05/03/2018)



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