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As minas e o homem: duas realidades que precisam dialogar

Com uma temática voltada para os obstáculos que surgem na relação entre sociedade, interesses privados e meio ambiente e para o papel da ciência na política latino-americana, a sessão intitulada "Administração de Conflitos Ambientais em Diversos Contextos" integrou o Workshop Internacional Sociedade e Natureza, realizado na Academia Brasileira de Ciências (ABC), nos dias 30/09 e 01/10.

Na palestra inicial, o professor adjunto do Programa de Pós-graduação em Geografia e do Departamento de Engenharia de Produção e Mecânica da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Bruno Milanez, focou na dinâmica entre meio ambiente, economia e sociedade e explicou como o setor mineralógico é ideal para compreendê-la. "Falar sobre mineração não significa apenas falar sobre o meio ambiente nacional, mas também sobre pessoas", ele diz. "Há um movimento crescente de resistência à abertura de novas minas na América Latina."

Embora os benefícios da atividade sejam muito conhecidos no quadro econômico brasileiro, Milanez lembra que a sociedade é afetada por ela em pelo menos dois níveis: "De um lado, você tem cidadãos locais, que são deslocados pelas minas. Do outro, há pequenas cidades com oito, dez mil habitantes que recebem de repente mais cinco mil pessoas, e muitas delas não estão prontas para esse influxo."

Já quanto às alterações ambientais pelas atividades das minas, ele citou a cidade de Congonhas, em Minas Gerais. Com pouco mais de 48 mil habitantes, ela abriga em seus arredores uma mina da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), cuja proximidade do espaço urbano é suficiente para a população se sentir incomodada com os dejetos das operações.

Este, contudo, não é o único problema. "As boas minas que a CSN tinha originalmente se esgotaram, então ela deseja mover-se para ainda mais perto da cidade, destruindo a camada de vegetação que a protege de boa parte da poeira das minas. Os movimentos locais reclamam e dizem que isso terá um impacto profundo em sua vida social."

Para o professor, que é doutorado em política ambiental pela Lincoln University, um diálogo entre os interesses das populações e dos capitais privados se faz necessário, e as ciências sociais podem ser valiosíssimas para a facilitação do mesmo. "Devemos construir uma ciência que se comunique com o governo, com as pessoas e empresas. Eu não vejo as ciências sociais dialogando com as companhias e abordando tópicos como éticas e valores das populações, então acho que este debate deva ser estimulado."


(Diogo Cysne para Ascom ABC)



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