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A multiplicação de talentos do Instituto de Matemática Pura e Aplicada

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Publicado em 10/06/2013

A matemática brasileira está multiplicando seus talentos. A operação, que diminuiu a praticamente zero a distância que historicamente separava o Brasil de países com tradição secular nos estudos da área, tem como foco a atuação do Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada (Impa), no Rio de Janeiro. Fundada em 1952, a instituição soma um recorde de pesquisadores convidados para serem palestrantes no próximo Congresso Internacional de Matemática, marcado para 2014 na Coreia do Sul, onde os quatro dividirão seus mais recentes feitos com milhares de outros especialistas. E esta equação pode ter como resultado a concessão da primeira Medalha Fields a um brasileiro. Considerado o equivalente ao Nobel da matemática, o prêmio é restrito a matemáticos jovens, com menos de 40 anos, e dois pesquisadores do Impa aparecem como possíveis candidatos: Fernando Codá Marques e Artur Avila, ambos com 33 anos.

Além da idade, os perfis de Codá e Avila têm outras interseções. Para começar, os dois alcançaram notoriedade internacional graças a seus trabalhos para resolver problemas que há décadas perturbavam os matemáticos de todo o mundo. Ambos também estão no conjunto de apenas três brasileiros já chamados para serem palestrantes plenaristas no congresso. Avila falou aos colegas em 2010 em Hyderabad, na Índia, enquanto Codá fará sua apresentação na Coreia. Antes deles, apenas Marcelo Viana, também Acadêmico e pesquisador do Impa, tinha sido plenarista, um prestigiado clube limitado a um máximo de 20 estudiosos a cada edição do evento, que acontece de quatro em quatro anos, no encontro de 1998 em Berlim.

"Com a maturidade cada vez maior da comunidade matemática brasileira, é normal que comecem a aparecer indícios de candidatos do país à Medalha Fields, e os mais naturais são justamente os que são ou já foram plenaristas no congresso", avalia o Acadêmico César Camacho, diretor-geral do Impa.

Martínis e rosquinhas

Em 2005, Avila, junto com a ucraniana Svetlana Jitomirskaya, provou a "Conjectura dos dez martínis", que apesar do nome não tem nada a ver com a bebida preferida do Agente 007. Proposta pelo matemático americano Barry Simon nos anos 80, ela versa sobre o comportamento dos chamados "operadores de Schrödinger", ferramentas matemáticas ligadas à física quântica, e ganhou o apelido apenas porque um físico prometeu pagar esta quantidade dos drinques a quem a provasse. "Trabalho em uma variedade de coisas, mas sempre quando entro em uma área nova costumo olhar para os problemas que foram colocados nela anteriormente", diz Avila. "Neste caso, o problema em si era bem atraente, então era uma questão natural estudá-lo."

Já Codá contou com a colaboração do português André Neves para provar, no ano passado, a "Conjectura de Willmore", ainda mais antiga que os "dez martínis" de Avila. Proposta há quase 50 anos pelo geômetra inglês Thomas Willmore, ela envolve cálculos para a configuração de objetos tridimensionais parecidos com rosquinhas, cujas curvas apresentam uma energia elástica natural. Com sua prova, Codá e Neves mostraram que a rosquinha ideal deve ter um buraco no meio com um diâmetro equivalente a cerca de 17% da sua grossura. Mais do que uma inspiração para confeiteiros entediados ou apenas uma complexa abstração matemática, a descoberta é fundamental para refinar os modelos biológicos de comportamento das membranas celulares, que têm estruturas também parecidas com rosquinhas e tendem a assumir formatos que minimizam esta energia elástica natural.

"Nem sempre esta relação da matemática com outras ciências é clara, nem é ela que guia o trabalho dos matemáticos, mais atraídos por questões de estética e beleza, mas essa influência de suas descobertas em outras áreas costuma aparecer, nem que seja muitos anos depois", conta Codá. A verdade é que, se a matemática parar, a física, a biologia, a engenharia também vão estagnar, e por isso é importante para um país manter um corpo de pesquisadores capacitados em matemática.

Neste sentido, a atuação do Impa como centro de excelência mundial no estudo da matemática ganha destaque. Em seus 60 anos de existência, a instituição já formou mais de 200 doutores e hoje mantém uma média entre 150 e 170 alunos nos seus cursos de mestrado e doutorado. Com um orçamento de cerca de R$ 20 milhões anuais, o Impa viu seu quadro de professores-pesquisadores crescer de 29 em 2001 para os atuais 51. E outra faceta importante do instituto é sua internacionalização. Segundo Camacho, ele próprio de origem peruana, perto de um terço dos matemáticos do Impa nasceram em outros países, assim como metade dos alunos. "Desde que foi criado, o Impa mantém sua missão de fazer pesquisas de nível internacional, formar novos pesquisadores e disseminar o estudo e o interesse na matemática em todos os seus níveis no país", conclui Camacho.


(Cesar Baima para O Globo, 7/6/2013)



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