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A escassez de água é um problema global, mas suas soluções devem ser locais, afirma diretora da ONU

A tradição popular se refere à água como o elemento da vida, o que tem respaldo científico. Em termos de desenvolvimento, porém, a água pode ser tão ou mais importante, determinando com que facilidade uma nação pode evoluir da pobreza à alta renda, e essa foi uma das questões abordadas na conferência "Ciência para a Erradicação da Pobreza e o Desenvolvimento Sustentável: uma Chamada para Ação".

Ocorrido em Manaus entre 3 e 5 de dezembro e realizado pela Academia Brasileira de Ciências (ABC) e pela Rede Global de Academias de Ciências (IAP), o evento contou com a presença de Blanca Jiménez, diretora da Divisão de Ciências da Água do Programa Hidrológico Internacional da Unesco. Em entrevista concedida à Academia, ela ressaltou que, no que se refere à escassez de água, as soluções mais eficazes são as velhas conhecidas: economizar, reutilizar e preservar.

ABC | Resumidamente, quais as soluções propostas para os problemas de crise de água que a humanidade enfrenta ou enfrentará nos próximos anos?

JIMÉNEZ | Precisamos não apenas lidar com a oferta de água, mas também com sua demanda. Quando há problemas agudos de água, isso pode ser tanto pela falta de precipitação ou por secas prolongadas quanto pelo alto consumo. Os governos precisam de planejamento, sim, mas a sociedade também tem que lidar com a água de modo mais eficiente.

Há muitos utensílios em que o uso de água pode ser reduzido drasticamente. Por exemplo, a descarga das privadas utiliza entre 20 e 40 litros. Hoje, nós temos privadas que usam apenas oito litros por descarga. Os chuveiros são outro exemplo. No hotel onde estou hospedada, eu fiquei surpresa com a quantidade de água desperdiçada! Como eu disse, o problema nem é a quantidade disponível, mas a forma com que a utilizamos. No mundo todo precisamos aplicar essas medidas [de redução do consumo].

ABC | A escassez de água está gerando muitas manchetes hoje, no Brasil, especialmente em relação ao Sudeste e ao Estado de São Paulo. Você acredita que esses problemas são ocasionados pelo descuido com as soluções que acabou de apontar?

JIMÉNEZ | O que São Paulo está enfrentando nós vemos em muitas outras cidades. Um problema é que as pessoas vivem mais e mais em centros urbanos, que ocupam menos de 1% do território mundial. Neste 1%, todas as pessoas estão se concentrando e demandando muita água! Não há fontes suficientes para produzir água na quantidade e no ritmo que a população exige. Para esse caso, só aprendendo a reusar ou usar menos água.

ABC | Existe uma correlação positiva entre a presença de recursos hídricos e o desenvolvimento de um país?

JIMÉNEZ | Vendo um mapa de disponibilidade da água, a regra é ter mais fontes hídricas nos países desenvolvidos. Países não desenvolvidos se concentram em regiões áridas. Todos os países precisam de irrigação e a agricultura é mais difícil [em regiões áridas], porque você necessita de mais investimentos. Então, além de ser uma questão de disponibilidade física, é também de presença de capacidade financeira.

ABC | E isso influencia de que modo as soluções para o problema da água no mundo?

JIMÉNEZ | O problema da água é global, mas as soluções só poderão partir de um nível local. Em um nível regional, as diferenças em disponibilidade podem ser muito grandes, e precisamos estar preparados para administrar estas desigualdades. Enquanto algumas regiões enfrentam seca, outras enfrentam enchentes; enquanto o problema de um local é a poluição, o de outro é a salinidade da água.

Essa é a questão: quando falamos de água, todos dizem "isso mesmo, precisamos fazer algo quanto aos problemas com a água, porque eles são de interesse mundial"; entretanto, quando conversamos individualmente com essas pessoas, percebemos que cada uma possui um significado diferente para o termo "fazer algo".

Nós também compartilhamos fontes de água entre países: hoje, há cerca de 450 aquíferos nos territórios de dois países ou mais. Normalmente, as fronteiras são definidas por rios, que não correspondem aos recursos hídricos localizados abaixo da terra. Assim, muitos países compartilham fontes de água sem saber, o que eventualmente ocasiona muita competição.

Ou seja, o importante hoje em dia é focar a ideia global de proteger nossos recursos hídricos na diversidade regional, o que é muito desafiador.


(Diogo Cysne para NABC)



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