A décima edição da série de webinários da ABC “Conhecer para Entender: O mundo a partir do coronavírus” trouxe três médicos convidados que estão na linha de frente na luta contra o novo coronavírus. Esta edição, realizada em 9 de junho, contou com o médico Mauro Teixeira, vice-presidente da ABC para MG&CO, mediando o encontro, e foi realizada em outro horário, devido à participação da ABC na Marcha pela Vida, movimento em defesa da saúde, da ciência e da democracia.

Participaram do encontro a Acadêmica Patricia Rocco, pesquisadora do Laboratório de Investigação Pulmonar do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IBCCF-UFRJ) e coordenadora de três estudos clínicos sobre COVID-19; Matheus Moraes Mourão, coordenador da unidade de terapia intensiva do Hospital Sírio Libanês, em São Paulo; e o médico infectologista e ex-membro afiliado da ABC (2011-2015) Marcus Lacerda, que coordena o Instituto de Pesquisa Clínica Carlos Borborema da Fundação de Medicina Tropical Dr. Heitor Vieira Dourado (FMT-HVD) e trabalha, também, na Fiocruz Amazonas. Suas pesquisas em doenças emergentes e malária o levaram a desenvolver pesquisas clínicas sobre o efeito da cloroquina em Manaus.

O alcance da infecção pelo novo coronavírus

Quando o coronavírus se instala no organismo humano, como contou a a médica Patricia Rocco, ele pode gerar uma infecção pulmonar com pelo menos três formas de apresentação, o que requer diferentes estratégias de tratamento.

“O vírus não causa somente pneumonia, ele pode causar lesão no cérebro, no coração, nos rins, no intestino, no fígado”, disse Rocco. Para a médica, em vez de SARS-CoV-2, sigla em inglês para Síndrome Respiratória Aguda Grave” e “coronavírus” (CoV), o vírus deveria ser chamado de MODS-CoV-2, sigla que em português significa “Síndrome de Disfunção Orgânica Múltipla”, em referência a sua capacidade de comprometimento sistêmico do organismo humano.

Naturalmente, o combate à pandemia do novo coronavírus deveria ser iniciado por meio da testagem ampla da população. Porém, além do país não ter testes suficientes, mesmo os que existem não têm eficácia comprovada para detecção do vírus, afora o RT-PCR (em português, a sigla se refere ao termo “Transcrição Reversa seguida de Reação em Cadeia da Polimerase”), que detecta o material genético do SARS-CoV-2 apenas em período ativo no organismo humano e, dependendo do local onde é realizado, pode levar até dois dias para apresentar o resultado. “Os 50 testes sorológicos existentes para coronavírus distribuídos no mundo inteiro não têm sensibilidade muito grande para detectar a doença. Precisamos ter testes sorológicos mais precisos”, alertou.

A definição para a estratégia de tratamento de um paciente internado com COVID-19 começa com uma a avaliação do quadro radiológico e funcional do doente. “Os doentes exibem manifestações diferentes. O esforço respiratório deve ser avaliado para que seja prescrita uma estratégia individualizada de ventilação mecânica, por exemplo”, afirmou. As arritmias, lesões renais e desordens de coagulação geradas pela doença, segundo a médica, aumentam o risco de complicações para o paciente, como uma embolia pulmonar. O acompanhamento médico de qualidade, nesses casos, é essencial.

A terapia intensiva para pacientes com COVID-19

Durante a pandemia, o número de pacientes que precisaram ser internados em UTIs sobrecarregou os serviços hospitalares. Muitos deles apresentam a Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) e precisam passar pelo processo de ventilação mecânica. Matheus Mourão coordena uma unidade de terapia intensiva (UTI) do Hospital Sírio-Libanês, em Brasília, que integra o grupo de hospitais reservado a pacientes com quadros mais graves.

Os protocolos de internação de pacientes com COVID-19 podem variar de acordo com a estrutura hospitalar, mas costumam seguir alguns parâmetros. “Pacientes que apresentam um desconforto respiratório grande ou alguma comorbidade associada, como diabetes ou hipertensão, são internados”, explicou o médico. Mourão destacou as dificuldades de manejo nestes casos. “O transporte destes pacientes para a realização de exames é difícil e pode oferecer risco de contaminação para a equipe. Por isso, alguns exames são feitos no próprio leito e é necessário o uso de equipamentos de proteção individual [EPIs]”, informou.

No hospital, Matheus observou que a doença apresenta um período crítico a partir do sexto dia de infecção. Nesse estágio, é possível notar o comprometimento provocado pela COVID-19 por meio de tomografias do tórax. “A partir desse momento, ficamos atentos à possibilidade de falência respiratória, quando há baixa oxigenação nos pulmões”, disse. Quando o paciente internado apresenta esse quadro de sintomas respiratórios, o médico pode oferecer o procedimento de ventilação mecânica não invasiva para evitar uma situação mais grave e até retardar a possibilidade da intubação orotraqueal, mais invasiva.

O tratamento de pessoas diagnosticadas com COVID-19 e que precisaram ser internadas teve de ser adaptado às condições dos hospitais. “Quando a pandemia chegou no Brasil, não tínhamos EPIs suficientes. Isso impactou o uso de algumas terapêuticas, obrigando o uso do tipo de ventilação pulmonar mais invasivo antes da apresentação de um quadro mais grave do paciente”, disse. “Espero que daqui para frente tenhamos uma estrutura melhor nos hospitais”, completou.

Uma chacina epidemiológica

O médico infectologista Marcus Lacerda esteve à frente dos primeiros estudos brasileiros para verificar a eficácia da cloroquina em pacientes com o novo coronavírus e acompanhou a evolução da pandemia em Manaus, um dos primeiros epicentros da COVID-19 no Brasil.

Hoje, após o pico, a capital do Amazonas vive uma queda no número de sepultamentos, do índice de mortalidade e da ocupação de leitos em hospitais. O isolamento social, como em outras partes do país, não foi feito de forma correta. “Manaus começou uma abertura do comércio, em etapas, após a queda do número de sepultamentos. Por meio de modelagem matemática, avalia-se que quase 100% de pessoas suscetíveis à infecção se expuseram ao vírus”, disse.

“É interessante como a pandemia surge na China, chega na Europa e, aqui, vivenciamos um processo de negação. Poderíamos ter desenhado nossos estudos e protocolos com meses de antecedência. A experiência dos outros países não foi absorvida pelo Brasil”, lamentou o médico.

Lacerda relatou que ele e outros pesquisadores de Manaus começaram a realizar estudos antes de vários centros porque a epidemia foi mais agressiva no seu estado. Pelo interesse de saúde pública internacional, partes de seu estudo CloroCovid-19, que obteve resultados negativos quanto à utilização da cloroquina contra a COVID-19, foi motivo para que o médico, sua família e sua equipe fossem ameaçados até de morte.

Além do que foi publicado, outras etapas do trabalho ainda estão em processo de análise. “Só vamos continuar quando nossa sociedade permitir que os pesquisadores façam suas publicações em paz, sem o risco de serem ameaçados, processados ou inquiridos”, disse.

Os riscos decorrentes da suspensão do isolamento social em diversas cidades brasileiras são vistos com preocupação pelos webinaristas. As estatísticas que comparam os cenários de propagação e contágio do novo coronavírus em cidades como São Paulo preveem um acúmulo de mortes. Para Lacerda, é uma decisão precipitada, pois ainda pode provocar a morte de milhares de pessoas, dependendo da curva de cada região. “Ainda não há medicamentos nem vacinas capazes de prevenir ou tratar com eficácia a COVID-19. Uma chacina pode passar despercebida, no interior e em populações negligenciadas, como as indígenas, por causa da subnotificação, tanto maior quanto a desigualdade social do país”, alertou o médico.


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