O evento de jovens cientistas “Ciência na América Latina: hoje e amanhã”  promovido na ABC contou com um painel sobre comunicação científica, realizado na tarde de 28/11, com quatro participantes: os cientistas Yurij Castelfranchi, sociólogo e Stevens Rehen, biólogo, e os jornalistas Herton Escobar e Ana Carolina Leonardi.

Yurij Castelfranchi é professor associado do Departamento de Sociologia da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas e diretor de Divulgação Científica da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Graduado em física (Università degli Studi La Sapienza, Roma, Itália), com mestrado em comunicação da ciência (International School for Advanced Studies, Trieste, Itália) e doutorado em sociologia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), ele coordena o Observatório Interdisciplinar InCiTe (Inovação, Cidadania, Tecnociência) e é membro do comitê gestor do Instituto Nacional de Comunicação Pública da C&T (INCT-CPCT). Seus principais temas de pesquisa envolvem sociologia da ciência e da tecnologia (C&T), comunicação pública da ciência, divulgação científica, jornalismo científico e ambiental, percepção pública de C&T, controvérsias sociais sobre C&T, apropriação e participação social em CT&I.

Sua apresentação começou questionando as afirmativas recorrentes que costumam ser usadas para representar a ciência e os cientistas. Seriam um farol na tempestade? Uma vela na escuridão? Ou será que a autoridade cultural da ciência é elástica, instável e insegura?

Castelfranchi alertou: vivemos em tempos perigosos. Os maiores problemas que ameaçam as democracias e a coesão social, segundo ele, vêm das teorias conspiratórias e dos fortes conflitos morais e políticos que afetam as evidências científicas e as decisões políticas baseadas em argumentos racionais.

Ele ressaltou que o “público”, “população” ou “sociedade” não devem ser tratados como pacientes, portadores de alguma deficiência cognitiva, e sim como agentes dessa nossa história.

Castelfranchi avalia que atualmente é fundamental para os cientistas e instituições de CT&I em todas as áreas e em todos os países entender como a opinião pública funciona em relação a ciência e tecnologia. “Interações ingênuas – ou recusas ingênuas em interagir – dos cientistas com o público ou com a mídia conduz a resultados catastróficos”, alertou. Em tempos de pós-verdade e teorias conspiratórias, as notícias falsas precisam ser combatidas não apenas em nível de comunicação institucional, em sua opinião, nem apenas por uma abordagem “verdade versus mitos”: envolvimento pessoal, ações de extensão e uma divulgação científica com base não apenas na transmissão de informação, mas no engajamento das pessoas e na construção de relações de confiança, são centrais neste processo.

A partir de pesquisas sobre percepção pública de ciência e tecnologia o Instituto Nacional de Comunicação Pública de Ciência e Tecnologia (INCT CPCT) , incluindo aí a percepção da relevância da ciência, o físico e sociólogo afirmou: não existe um movimento mundial anticiência. “A grande maioria da população brasileira não é ‘contra’ a ciência, pelo contrário”, ressaltou Castelfranchi. Mas esclareceu que, especialmente em momentos de crise de legitimidade e de polarização, as pessoas não confiam em autoridade. E quando a ciência é vista não como uma prática, mas apenas como uma autoridade, as pessoas têm problemas em aceitar afirmações, evidências, teorias, na ciência, que parecem entrar em conflito com seus posicionamentos morais ou escolhas políticas. “Existem grupos que se aproveitam disso: destruir a confiança na ciência e nas universidades é um meio para alcançar um fim”, assinalou o pesquisador.

Os resultados corroboram outros anteriores, no que tange à percepção positiva da relevância social da ciência, da percepção de professores, médicos e cientistas como as categorias sociais mais confiáveis e da categoria dos políticos como a menos confiável. Quanto à confiabilidade de jornalistas ou líderes religiosos, os brasileiros estão mais divididos: há uma porcentagem de pessoas que mencionam os religiosos entre as fontes mais confiáveis de informação, mas outra parcela que os menciona no conjunto dos menos confiáveis. O mesmo acontece com jornalistas.

Entre as boas notícias que a pesquisa traz está o fato de que mais da metade dos jovens pensa que a ciência deve receber mais investimentos, mesmo que se tenha que retirar recursos de outras áreas. Os demais acreditam que deveríamos manter os mesmos níveis de investimentos, mesmo em tempos de crise: quase ninguém, no Brasil, concorda com diminuir o investimento em C&T.

Um resultado muito interessante apresentado por Castelfranchi aborda questões controversas. As categorias mais significativas identificadas dizem respeito a “concordar com a teoria da evolução”, achar que “cientistas exageram sobre as mudanças climáticas”, “acreditar em astrologia” e achar que “vacinas podem ser perigosas para crianças”. Ele explicou que o cada uma dessas posições é defendida por grupos sociais diferentes, ou seja: não há uma parte determinada da população que seja uniforme quanto às controvérsias.

Algumas das opiniões a respeito de evidências científicas, em sua análise, dependem de capital cultural e acesso ao conhecimento. Outras opiniões, no entanto, são mais influenciadas por religião e valores morais. “A trajetória religiosa da pessoa, por exemplo, determina a aceitação ou não da teoria da evolução.” Já a posição anti-vacina não é apenas um efeito da desinformação, mas também uma causa. “É afetada por valores políticos e morais que aceitam ou rejeitam a informação em si, e confiam em fontes diferentes”, relatou.

Existem, por exemplo, pessoas acreditam na teoria da evolução e também em astrologia, mas acham que vacinas podem causar problemas e que cientistas exageram sobre o clima. E outras possíveis combinações de opiniões também ocorrem, assim como uma identificação positiva com apenas uma e nenhuma outra.

O pesquisador apontou que pesquisas internacionais nessa mesma linha confirmam esses resultados: as pessoas que se opõem a evidências científicas são diferentes, e o fazem por diferentes razões. “O maior problema é a confiança, não a ignorância. Esta é mais um efeito da desconfiança do que a causa das posições anti-ciência. É por isso que esclarecer informações falsas é importante, mas não é suficiente”, observou Castelfranchi.

Assumir uma posição de ‘soldado’ numa suposta ‘guerra contra a ciência’ não é a melhor maneira de lidar com a situação, segundo o estudioso. Pelo contrário, Castelfranchi argumentou que este tipo de abordagem afasta as pessoas, em vez de atrai-las. “Não podemos nos comportar como nas Cruzadas. Não devemos dizer que estamos defendendo a ‘cultura científica’ e ‘combatendo mitos’ sem entendermos, de fato o que significa ‘mito’ e o que significa ‘cultura’. Cultura envolve mitos, rituais, poder, desigualdade e inclusão.”

 

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