Em maio de 2012, dez jovens cientistas de excelência apresentaram as pesquisas que os levaram a fazer parte do quadro de integrantes da ABC. Os Membros Afiliados da Região Minas Gerais & Centro-Oeste eleitos para o período 2010/2011-2015 e 2011/2012-2016 se uniram em uma mesma cerimônia de diplomação, realizada na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). O presidente da Academia, Jacob Palis, disse ser uma alegria estar na universidade pela quinta vez para receber formalmente os novos membros. “Considero esta a minha casa”, declarou. “Adoro Minas Gerais e essa universidade, que é um dos esteios da ciência, da tecnologia e da formação de recursos humanos.”
O matemático explicou que as vice-presidências regionais têm o intuito de espalhar as atividades da Academia por todo o país, dizendo ser fundamental promover a desconcentração da ciência no Brasil. Ele lembrou da região Centro-Oeste que, apesar de ter centros importantes como a Universidade de Brasília (UnB), precisa de mais estímulos. “Temos que começar a descobrir talentos no Mato Grosso porque, como eu sempre digo, eles não escolhem onde nascer”, exemplificou Palis. “Por isso estamos aqui premiando e reconhecendo o mérito de vocês. Também contamos com uma contrapartida, que é ter o comprometimento de vocês com a ciência brasileira.”
A vice-presidente regional de Minas Gerais & Centro-Oeste, Maria Carolina Nemes, expressou a sua admiração pela gestão do presidente, Jacob Palis, e a iniciativa de trazer os jovens cientistas para perto da ABC: “Palis busca dar uma dimensão maior à ciência brasileira e faz um esforço enorme para divulgá-la não apenas dentro do Brasil, mas também no exterior, diversificando-a ao juntar jovens pesquisadores de várias áreas. Desejo que os Afiliados levem à frente os ideais da Academia em todos os seus profundos sentidos”.

O presidente da ABC, Jacob Palis, o reitor da UFMG, Clélio Campolina, e a
vice-presidente regional de Minas Gerais & Centro-Oeste, Maria Carolina Nemes
Oportunidades dentro de um novo sistema mundial
O reitor da UFMG, Clélio Campolina, disse ser uma satisfação receber um evento da ABC e agradeceu a presença de Palis e outras autoridades, como o diretor-científico da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig), José Policarpo: “Ele é um braço decisivo de suporte às atividades cientificas da universidade”. Campolina declarou que os novos membros da Academia são um orgulho para o Brasil e ressaltou que esta é uma fase de muitos desafios e oportunidades pela frente. “Estamos diante de um quadro de profundas transformações mundiais, na geografia econômica e política, com uma tendência a um sistema multipolar nos próximos anos.”
O reitor, que é economista, explicou que a dimensão da crise atual não era previsível, de modo que ninguém poderia calcular seus impactos: “O Brasil tem grandes oportunidades nessa nova reorganização mundial, apesar de termos muitas dificuldades, desigualdade social e problemas institucionais graves. E ninguém tem dúvida de que o desenvolvimento tem que estar cada vez mais fundamentado na ciência, então eu acho que as instituições que congregam o cientista têm uma importância central nesse momento”. Por fim, ele citou o bispo anglicano Desmond Tutu, consagrado com o Prêmio Nobel da Paz, que declarou que “a juventude é a maior invenção da humanidade”.
O significado de fazer parte da ABC em início de carreira
Representando os primeiros Membros Afiliados da ABC, eleitos em 2007 para o período de cinco anos, o físico Ado Jório Vasconcelos (na foto à esquerda) fez um discurso de despedida: “O mais interessante desses últimos anos foi poder participar um pouco mais e ver o que é a vida dentro da Academia”. Ele comentou que foi uma experiência muito enriquecedora, pois trata-se de um ambiente interdisciplinar, e estimulou os novos ingressantes a participarem dos eventos da ABC. “Neles, você tem uma visão da ciência brasileira bem diferenciada. Então meu discurso é um agradecimento à Academia por proporcionar essa possibilidade.”
O biólogo Ricardo Fujiwara (na foto à direita) representou os Afiliados eleitos em 2011 para o período entre 2012 e 2016. Ele declarou ser uma honra fazer parte do quadro de membros da ABC, por conta da sua importância para a sociedade e participação ativa na implementação de políticas públicas. “Essa interação é o que todo jovem cientista precisa, pois às vezes não temos a estrutura, mas temos a quem recorrer. É uma conquista profissional.”
Ele considerou que a abertura dessa porta para jovens pesquisadores representa um pouco da reinvenção e perenidade da Academia, uma vez que os iniciantes “não têm a experiência, mas têm novas ideias e energia”, e concordou que os Afiliados eleitos devem uma participação ativa, além de promover a mobilização da comunidade científica. “Saber que a Academia acredita nos jovens pesquisadores é uma renovação para nós que ainda estamos no começo de carreira, além de um estímulo para quem está almejando uma carreira científica. Também é uma honra representar Minas Gerais e o centro-oeste, que são regiões riquíssimas.”
Fujiwara lembrou, ainda, que os Afiliados eleitos em 2011 encerram suas atividades em 2016, ano do centenário da Academia e, por isso, esperam dar a sua melhor contribuição para a produção científica e formação de novos cientistas, auxiliando na implementação de políticas públicas de C&T no país.
Também biólogo, o Afiliado João Trindade Marques (na foto à direita) falou em nome dos eleitos em 2010 para o período de 2011 a 2015, e declarou que a indicação para membro da ABC tem significância na vida profissional e pessoal. “É uma experiência única poder fazer parte desse ambiente. A Academia representa a ciência do Brasil e é um privilégio ter acesso a ela – como aconteceu no excelente simpósio que reuniu todos os Membros Afiliados no ano passado. Compartilhamos da sua missão de promover o desenvolvimento científico do país e a interação entre cientistas brasileiros e de outras ações.”
Comunicar a ciência para a população
Segundo o biólogo, a presença na Academia é importante porque expõe esses jovens profissionais e dão a eles a oportunidade de se relacionar com pesquisadores de áreas tão diferentes, enriquecendo a ciência brasileira, que ainda é pequena se comparada a outros países. “Um dos objetivos da ABC e nosso é comunicar a população para impedir que a ci
ência seja desvalorizada, buscando evitar que aconteçam, por exemplo, os cortes recentes no orçamento do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI). Como a ciência é vista no Brasil e no mundo depende muito da gente.” Marques comentou que a população brasileira tem pouca idéia do que faz um cientista, acreditando que ele fica voltado exclusivamente à pesquisa e “não trabalha”. “Não podemos apenas gerar conhecimento; também precisamos transmiti-lo.”
O Afiliado deu exemplos dessa situação relativos à área de Ciências Biológicas, na qual atua. Ele informou que, nos Estados Unidos, os cientistas têm um alto respeito por parte da população em geral, perdendo apenas para os bombeiros (especialmente após o atentado terrorista de 2011). As pessoas confiam nos cientistas quando falam sobre assuntos como evolução e energias renováveis, mas quando se trata de pandemias como a do vírus influenza, eles não despertam a mesma confiança. “Isso tem a ver com a forma com que isso é divulgado para a população”, ressaltou Marques. “Dados da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) mostram que a comunicação da ciência é feita de forma incorreta, o que levou à Revolta da Vacina, em 1904. Foi uma revolta popular, contra a vacinação da varíola feita no Brasil – responsável pela primeira e única erradicação de um agente patogênico na historia da humanidade.” Ele disse que, apesar de a vacina ser extremamente bem sucedida, as pessoas não queriam tomar por conta do boato de que fazia mal.
Marques explicou, então, que deve ser informado para a população que a ciência não tem verdades absolutas – ela aceita a verdade evidenciada naquele momento. “Ao comunicar a população, temos que explicar o que é um consenso científico”, alegou. “É tudo baseado em fatos.” De acordo com o Afiliado, a aceitação da teoria da evolução é baixa até mesmo nos Estados Unidos (menos de 40%), sendo que este é o país com a maior produção científica mundial. “No Brasil, 31% acreditam que Deus criou o ser humano nos últimos dez mil anos da forma como somos hoje. Isso está errado, foi comprovado cientificamente. 89% acreditam que o criacionismo deve ser ensinado nas escolas na disciplina de ciências. Isso é aceitável na aula de religião, mas em ciências não, porque não é uma teoria científica. São absurdos que os cientistas deixam passar por várias razões, como a falta de comunicação com a população.”
O biólogo indignou-se com o fato de que existem até mesmo médicos que não acreditam na teoria da evolução: “Como ele vai tratar uma doença causada por uma bactéria? É um paradoxo que não deve ser aceito pela comunidade científica”. Marques concluiu que a ciência permite grandes avanços tecnológicos que antes não eram pensados e que podem, muitas vezes em pouco tempo, melhorar a qualidade de vida da população, mas para isso tem que haver aceitação pública. “Não adianta ser imposta pelos cientistas; isso depende de como é comunicado.”
Leia os perfis de cada um dos novos Membros Afiliados da Região Minas Gerais & Centro-Oeste e conheça melhor esses jovens cientistas!